Lula e Alcolumbre nos tempos da lua de mel
Ricardo Stuckert/PR
Lula e Alcolumbre nos tempos da lua de mel

Lula (PT) sofreu as duas maiores derrotas de seu governo no Congresso em menos de 24 horas.

Num dia o Senado barrou a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. No outro, caiu o veto presidencial ao projeto de Dosimetria, que alivia a pena para golpistas do 8 de janeiro e outros criminosos condenados.

As derrotas têm as digitais do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e seu séquito. Bem ele, que iniciou o governo declamando amores a Lula. A lua de mel durou pouco.

Os partidos que patrocinaram as derrotas do governo, como o União Brasil de Alcolumbre, têm aliados instalados em todos os escalões do governo. Inclusive ministérios.

Lula é cobrado para dar uma resposta dura à molecagem de Alcolumbre. O mínimo que se espera é uma limpa na administração.

Mas nada é tão simples.

Com o orçamento turbinado (a palavra certa é sequestrado) por emendas impositivas, o Legislativo já não depende tanto do Executivo para distribuir recursos e alimentar as bases em ano eleitoral. A principal ferramenta de dissuasão do presidente hoje é uma caneta com pouca tinta.

A resposta mais assertiva, para muitos, pode estar no discurso. Nos tempos da PEC da Blindagem, no fim do ano passado, pegou como cola o slogan governista segundo o qual o “Congresso é inimigo do povo”. Era um refrão fácil de ser decorado quando parlamentares se movimentavam para fugir de investigações. Não cola quando a bronca é mobilizada por um ministro cuja indicação ao STF foi rejeitada pelos senadores.

A não ser que o indicado fosse a Shakira, uma das poucas entidades vivas capazes hoje de levar dois milhões de pessoas para as ruas numa madrugada. Não é o caso do monocórdico advogado Jorge Messias.

A base teria de calibrar o discurso a partir da barbaridade da dosimetria e explicar que, a partir de agora, se alguém quiser atentar contra o Estado democrático de Direito, pode. A pena é menor do que a de quem rouba um pirulito na vendinha.

Mas aí o problema passa a ser outro.

Lula foi derrotado em duas votações-chave, mas não há nada que não possa piorar. Um conflito aberto pode complicar os planos de ver aprovado, ainda neste ano, o fim da escala 6 por 1, este sim um projeto de apelo popular.

Ou mesmo o Novo Desenrola Brasil, programa de alívio às dívidas das famílias brasileiras que já está em vigor mas ainda precisa ser ratificado pelo Congresso.

Mastigar os marimbondos (e sair de bobo na história) ou sair cuspindo os insetos: eis a questão.

E não tem saída fácil quando as armas dos adversários estão calibradas no momento de articulação dos palanques nos estados. Numa eleição que promete ser tão apertada, qualquer derrapada agora pode ser fatal.

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