
Donald Trump tomou um nó tático da Guarda Revolucionária do Irã neste fim de semana e viu o acordo de cessar-fogo com o país persa cada vez mais longe. Emparedado, ele decidiu mirar o canhão contra o papa Leão 14, que em seus pronunciamentos não perde a chance de condenar o impulso destrutivo do conterrâneo.
Na madrugada desta segunda-feira, Trump foi ao Truth Social dizer que o papa “só foi colocado lá pela Igreja porque era americano, e acharam que essa seria a melhor forma de lidar com o presidente Donald J. Trump".
Calçado por uma megalomania de distorção incomum até mesmo parao cargo que ocupa, o republicano manifestou convicção de que se não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano.
Mais: pouco antes, em conversa com repórteres na Base Aérea de Maryland, ele disse que não era fã do pontífice, a quem classificou como “uma pessoa muito liberal” e que não acreditaria “em acabar com o crime” – seja lá o que sisso ignifica. Para ele, Robert Prevost "brinca" com um país que quer uma arma nuclear. As mesmas que não foram apresentadas até agora.
Até aí, é do jogo. Trump segue a trilha deixada por Lyndon B. Johson, segundo quem a vitória em uma guerra depende dos corações e mentes das pessoas afetadas pelo conflito. Se o papa se opõe a um plano militar, há uma barreira e tanto para alcançar o objetivo.
Leão 14 respondeu dizendo que não tem "nenhum medo da administração Trump, nem de falar abertamente a mensagem do Evangelho".
Trump retrucou e voltou à carga vestido de Jesus Cristo em uma imagem produzida por Inteligência Artificial. Foi aí que perdeu a guerra (cultural) de vez.
Ao longo da história, não faltam exemplos de quem ironizou ou se comparou a Jesus sem pagar um preço alto por isso. Os Beatles que o digam.
Os crimes, aqui, entram no campo da quebra de normas culturais e religiosas e da blasfêmia.
Trump evidenciou, mais do que nunca, a percepção de grandiosidade exagerada e delirante como marca de sua atuação. Há quem veja graça e há quem peça interdição.
O efeito imediato, aqui, é a rejeição de boa parte da opinião pública. Trump faz isso com maestria: choca para aglutinar. Mas, dessa vez, comprou uma briga com a própria base conservadora – mesmo a que, como ele, não é lá muito fã do papa, mas que nem por isso dá ao seu presidente a permissão de usar o santo manto em vão.
Para este público, com Jesus não se brinca. Nem por Inteligência Artificial. Menos ainda quando seu nome é usado para empilhar corpos.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG