Senador Sergio Moro durante discurso na tribuna do Senado onde falou sobre atentado contra ele e sua família
Lula Marques/ Agência Brasil - 22/03/2023
Senador Sergio Moro durante discurso na tribuna do Senado onde falou sobre atentado contra ele e sua família

Sérgio Moro determinou a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva em 5 de abril de 2018. Condenado no caso do triplex, o petista assistiu à campanha presidencial daquele ano na cadeia.

Seis meses depois, o então juiz deixou a 13ª Vara Federal de Curitiba, berço da Lava Jato, para aceitar o cargo de ministro da Justiça do candidato que ele ajudou a eleger com a prisão do seu principal adversário.

As mensagens que ele trocava pelo Telegram com os procuradores responsáveis por forçar a mão e tirar Lula de campo ainda não tinham sido reveladas.

A dobradinha teve vida curta.

Moro serviu ao governo de Jair Bolsonaro por menos de um ano e meio. Desgastado, ele deixou a pasta em meio a queixas de falta de apoio político do chefe ao seu pacote anticrime. Ele também sentiu falta da “carta branca” prometida em sua gestão.

Na saída, deixou claro o descontentamento pela interferência de Bolsonaro em investigações e nomeações. O estopim foi a demissão, sem o aval de Moro, de Maurício Valeixo do cargo de diretor-geral da Polícia Federal.

Dias antes, Bolsonaro se queixava, em reunião com seus ministros, que não era avisado das operações da PF que poderiam atingi-lo.

Enfurecido, Moro apresentou mensagens e afirmou que Bolsonaro queria acesso a relatórios da PF e proteção a aliados e familiares, entre eles o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), já enroscado no caso das rachadinhas.

Bolsonaro acusava Moro, a quem chamava de “Judas”, de agir por interesses pessoais. Na época ele era cotado para uma vaga no STF. E sonhava em disputar o Palácio do Planalto.

Quase seis anos se passaram e o agora senador acaba de trocar o União Brasil pelo PL, o mesmo partido de Bolsonaro. Na cerimônia de filiação, ele lamentou a ausência do antigo chefe – vítima, segundo ele, de uma injustiça.

O discurso foi feito ao lado de Flávio, aquele a quem o pai tentou blindar quando Moro era ministro da Justiça. As acusações, claro, passaram longe do discurso.

O ex-juiz quer ser governador do Paraná, e prometeu dar palanque ao primogênito do ex-desafeto quando a campanha começar. 

"Vamos trabalhar para que vossa excelência tenha uma grande vitória no nosso estado", disse, em discurso subserviente, e sob olhares do amigo lavajatista Deltan Dallagnol, que a essa altura nem disfarça as preferências políticas. 

A cartilha bolsonarista ele, que já foi considerado um quadro técnico (risos) do antigo governo, já decorou. Não faltou nem colocar em dúvida a legitimidade da eleição de Lula em 2022.

Bolsonaro se tornou inelegível por colocar o mesmo processo em dúvida, diante de embaixadores. O resto é história.

A candidatura de Moro move as placas tectônicas do jogo político. De cara, obriga o ainda governador Ratinho Jr (PSD) a desistir da campanha à Presidência para tomar conta do quintal e garantir a eleição de um aliado no estado.

Isso obriga Gilberto Kassab, também traído por bolsonaristas em São Paulo, a recorrer a um plano B na disputa ao Planalto – provavelmente Ronaldo Caiado (GO), figura menos conciliadora do que o colega paranaense.

Quem ri do racha no berço da Lava Jato é Lula, que não tem nada com isso e vai assistir de camarote à briga entre judas do centrão e da extrema-direita que já nem se finge de cordeiro.

*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG

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