Daniel Vorcaro, dono do banco Master, e Alexandre de Moraes, ministro do STF
Divulgação/ Master e STF
Daniel Vorcaro, dono do banco Master, e Alexandre de Moraes, ministro do STF

A lógica binária das redes não comporta a complexidade do caso Master.

Erra quem pensa que o banqueiro alçado a vilão número 1 do Brasil – por conseguir contratos com governadores amigos para morder contracheques de servidores, por oferecer aos clientes um retorno financeiro impossível de resgatar, por envolver banco público para tapar os cascos furados de seu navio, por manter relações estranhas com autoridades, por comprar notícias positivas, por bisbilhotar e mandar socar oponentes e por uma porrada de outras razões – só era quem era porque tinha lá seus políticos de estimação.

Ele tinha, mas a cor do dinheiro não escolhe parceiros. Daniel Vorcaro dizia em conversa com a namorada que ele achava Jair Bolsonaro um “beócio”. A turba bolsonarista correu pra dizer: ufa, ele não era dos nossos.

Era sim. Foi um governador bolsonarista que aceitou entrar num negócio que não era bom nem para seu banco público nem para os cidadãos, que agora pagam a conta. O cunhado dele foi um dos maiores financiadores privados da campanha de Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Um jato do banqueiro serviu para Nikolas Ferreira pedir votos para o ex-presidente e então candidato à reeleição em 2022. O grande amigo de Vorcaro era ministro da Casa Civil do ex-capitão. E toda a bomba que só estourou agora foi montada sob as vistas grossas do Banco Central então presidido por Roberto Campos Neto.

Ainda assim Vorcaro se gabava, nas mensagens com a companheira, de andar no mesmo círculo de “Alexandre Moraes”, o maior inimigo dos bolsonaristas depois de Paulo Freire.

Sse não for um homônimo sem o “de” entre nome e sobrenome, Vorcaro tinha na lista de seus contatos um ministro do STF que poderia acionar em caso de emergência. Como de fato acionou horas antes da primeira prisão, em novembro do ano passado, ao cobrar uma resposta pendente do contatinho – que, mais esperto, respondeu em mensagem de visualização única. Nunca saberemos o que continha ali.

Fica ainda pior se o contato for casado com uma advogada contratada para resolver pepinos no banco de Vorcaro na Justiça e órgãos de controle. E pior ainda se o contrato rondar a casa dos milhões.

O material apreendido no celular do banqueiro mostrou que ele se comportava como chefe de máfia, daqueles que enviam mensagem a desafetos com uma cabeça cortada de cavalo sobre a cama. Ele mesmo admitia, nas mensagens privadas, que o meio em que trabalhava era uma espécie de máfia.

Como tal, Vorcaro atraiu aliados e protetores de todas as esferas do poder em busca de blindagem. Jogou o jogo que se espera de um líder de gangue. O problema foi quem aceitou a proximidade, as caronas, as festas ou mesmo o canal aberto para casos de emergência.

De novo: se o “Alexandre Moraes” das mensagens não for um homônimo, é bom o ministro vir a público explicar por que não bloqueou o contato de um empresário enroscado com a Justiça. Por razões tão óbvias que dá até vergonha justificar: um investigado não pode ter acesso ao juiz a não ser que esteja diante de um tribunal após ser indiciado, formalmente denunciado e tornado réu.

Todo o resto é um golpe na credibilidade tanto de quem não se blindou de relacionamentos tóxicos no ambiente privado quanto da instituição que representa. Isso em um momento em que a turma cassada por Moraes quer transforar o prédio do STF em um grande estacionamento. Pelo bem das instituições que acabam de ser salva da turba, há muito ainda a ser explicado.

*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG

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