De longe, a ofensiva dos Estados Unidos, em parceria com Israel, contra o Irã segue o roteiro de um filme repetido.
Donald Trump não inventou a roda. Nem a guerra. Nem as engrenagens que a mobilizam.
Com bombas, o líder da vez promete levar segurança, democracia e paz (?) às áreas atingidas. Isso é o que os tiranos sempre faze.
Faltou combinar com as meninas da escola feminina em Minab, no sul do país persa, atingidas enquanto a potência ocidental mirava uma base da Guarda Revolucionária. Ao menos 175 pessoas, a maioria crianças, morreram na ação.
Duas palavras bastam para mostrar que nem Trump nem Benjamin Netanyahu vão conseguir o que prometem em rede nacional. Iraque e Afeganistão.
A exemplo do atual chefe da Casa Branca, George W. Bush também mentiu para o mundo ao dizer que o ataque a Bagdá, em 2023, visava neutralizar as armas químicas que nunca apareceram. Trump faz o mesmo agora ao citar o programa nuclear iraniano.
O caos nos países atacados neste início de século é a maior prova de que a história está prestes a se repetir.
As coincidências param por aqui. A ação eliminou a cúpula política, militar e espiritual do Irã, entre eles o aiatolá e líder supremo Khamenei. A rapidez com que isso ocorreu, mesmo com avisos e ameças explícitas, é inédita.
Uma nova cúpula se formou no mesmo dia, e o revide, com o envio de mísseis iranianos em direção a vizinhos onde os Estados Unidos possuem bases militares, não demorou.
Sinal de que, diferentemente do que aconteceu na Venezuela, o país agredido desta vez não vai abrir as portas para o inimigo.
Em 2026, com a ajuda de tecnologia de ponta e serviço de informação conectado com as big techs, nenhuma liderança que peita os interesses norte-americanos está salva em esconderijo algum. Osama Bin Laden levou anos para ser capturado. Hoje as pegadas de geolocalização identificam alvos e matam sem julgamento prévio. Se alguém morrer no caminho, paciência.
Com a ação, Trump remove do Oriente Médio uma das últimas barreiras antiamericanas na região. Isso acontece na porta de entrada da Ásia, onde está o real inimigo de Washington.
A China, potência que hoje coloca a hegemonia dos Estados Unidos em risco, vê o cerco se fechar. Como vai reagir além das notas de repúdio, assinadas também pela Rússia de Vladimir Putin, não sabemos. Dessa vez a guerra está perto demais do próprio quintal para assistir de camarote. Da última vez que alguém meteu o louco assim havia um inverno na Rússia para melar os planos.
Trump é imparável e, mais uma vez, deu de ombros para o Congresso do próprio país e para o Conselho de Segurança da ONU – que ao menos foi consultado por Bush, que agiu apesar da negativa. Tem um alegado Conselho da Paz para se escorar, e nunca antas as Nações Unidas, desmoralizada, e os tribunais de guerra estiveram sob ataque tão intenso.
Trump mira para fora tentando reverter a perda de apoio interno, com o escândalo Epstein às portas e uma eleição de meio de mandato em que pode acontecer tudo contra, inclusive nada.
Uma guerra mobiliza o patriotismo interno e serve para vender falsas soluções de segurança para os eleitores menos céticos, supostamente na mira de um regime tão ou mais cruel do que os apoiados pelos salvadores do mundo, como a Arábia Saudita, uma monarquia absolutista.
Salvar a própria imagem é aparentemente o único plano em curso que Trump consegue mobilizar. Talvez ele nem saiba onde fica Teerã e quantos habitantes tem o país atacado. Se soubesse, não diria que seu único freio é o próprio juízo. Isso ele nunca teve. Só que as consequências agora também podem ser inéditas.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG