Bad Bunny durante apresentação no halftime
Divulgação/NFL
Bad Bunny durante apresentação no halftime

O nosso norte é o Sul, declarou, sem declarar, o artista uruguaio Joaquín Torres García com sua “América Invertida”, de 1943. A famosa imagem, que estampa uma das minhas camisetas favoritas, é um manifesto visual sobre identidade cultural, autonomia intelectual e crítica ao eurocentrismo. 

O mapa  desafia a convenção cartográfica tradicional, que coloca Europa e América do Norte “acima” dos países  periféricos e referenda uma centralidade cultural associada ao poder.

Ao inverter o mapa, Torres Garcia questiona a ideia de que o pensamento hegemônico é “importado” do hemisfério norte e consumido acriticamente por uma população esquecida e subordinada. 

Entre pinturas, manuscritos, maquetes, desenhos e os brinquedos de madeira produzidos pelo artista nos tempos de vaca magra, esbarrei na famosa imagem, que mostra o Equador no pé da imagem, e o sul da América do Sul no topo, ao fim da exposição “Joaquín Torres García – 150 anos”, em cartaz até o dia 9 de março no CCBB Centro Cultural São Paulo (de lá a exposição segue para Brasília e Belo Horizonte).

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Divulgação

Mapa-manifesto América Invertida, de Torres García


Torres García é um artista pouco conhecido por aqui, um país de dimensões continentais que costuma virar as costas para os vizinhos e olhar do Atlântico para cima. E isso só mostra a urgência de seu esforço, empreendido ao longo do século 20, para conferir alcance global para a América Latina através do que chamava “universalismo construtivo”.

Garcia defendia que os artistas da macrorregião deveriam desenvolver uma arte própria, sem depender das influências europeias e norte-americanas. E que buscassem suas raízes, símbolos e referências locais para criar uma produção autêntica e conectada com a cultura do continente.

Ao menos por alguns minutos o manifesto se confirmou, e a América virou de cabeça para baixo, com o centro deslocado diante da plateia.

Foi isso o que aconteceu durante a apresentação de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, o evento de maior audiência da TV estadunidense.

Entre música e performance, não faltou simbolismo nas mensagens enviadas ao vivaço sobre a cultura latino-americana, citadas país por país, de baixo para cima, até chegar a Porto Rico, seu país-natal, para onde jogou os olhos do mundo ao se tornar o artista mais ouvido da atualidade.

Isso em meio à caça às bruxas promovida por Donald Trump contra imigrantes perseguidos em seu país. Sim, todos devíamos tirar mais fotos daquele momento em que, como a realização da profecia de Torres Garcia, o Sul se tornou o norte. 

Trump sentiu o golpe ao ver um latino brilhar, em língua estrangeitra e sotaque peculiar, em seu quintal. Achou tudo aquilo uma afronta à grandeza da América. Qual América?, poderia questionar Benito Antonio Martinez Ocasio, nome de batismo de Bad Bunny. 

Curioso é que Trump não foi sequer citado. Bastaram, para Bunny, as referências à riqueza cultural que o chefe da Casa Branca ignora e se empenha em destruir.

A resistência veio em tom de ironia, ao chamar o patrimônio norte-americano de “Súper Tazón”. (Semanas atrás, ao receber o prêmio de melhor Ator no Globo de Ouro por “O Agente Secreto”, foi Wagner Moura quem falou, em bom português, o que gente como Trump jamais fez questão de ouvir. Se a moda pega...). 

Os atos políticos se sucedem, assim, numa nação que normalizou o absurdo e colocou em prática ideias tortas de supremacismo que acreditávamos enterrados ao fim da Segunda Guerra.

Os shows durante o intervalo do Super Bowl acontecem todos os anos. Este, em especial, será lembrado para sempre como um dos maiores manifestos contra o autoritarismo em um dos períodos mais violentos da história norte-americana.

*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG

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