Jair Bolsonaro poderá ler Dostoyevski na prisão
Agência Brasil
Jair Bolsonaro poderá ler Dostoyevski na prisão

Raskólnikov, protagonista de “Crime e Castigo”, de Fiodor Dostoievski, acredita que a humanidade é dividida entre duas categorias humanas. As pessoas ordinárias e as extraordinárias. 

A maioria está no primeiro grupo. A elas cabe nascer e morrer. No meio devem apenas calar, trabalhar e obedecer.

As extraordinárias são raras e impulsionam o progresso histórico. Em nome de um ideal maior, podem violar leis morais, jurídicas e até cometer crimes, se for preciso. Tudo pela causa.

Em outras palavras, o que o personagem diz é que vai morrer gente. Vai. Mas é da vida. Todo mundo morre um dia. E nem todo mundo tem histórico de atleta para assistir de camarote à revolução. O mundo mesmo se encarrega de se livrar dos fracos/ordinários.

Não é preciso ser crítico literário para entender onde reside o limite da tese do personagem de Dostoiévski. 

Quem define quem pode ou não cometer um assassinato (ou 700 mil, em tempos de pandemia) nunca vai admitir que, no fundo, é só uma pessoa ordinária com delírios de grandeza. Ou paranoicos. Vai sempre justificar o injustificável pelo viés da causa supostamente mais nobre: a liberdade, o combate aos inimigos internos, a salvação dos empregos, a ordem, a família, etc.

“Crime e Castigo” é um dos livros que Jair Bolsonaro (PL) poderá ler na cadeia para abater o tempo de pena. Como qualquer outro apenado, ele pode requerer o direito e diminuir os 27 anos de prisão com uma rotina mínima de leitura. 

O pedido foi entregue por seus advogados ao ministro do STF, Alexandre de Moraes.

O livro de cabeceira, até então, do ex-presidente são as memórias de Carlos Alberto Brilhante Ustra, a quem fez questão de homenagear durante o voto pelo impeachment de Dilma Rousseff. Não se sabe se ele leu outra coisa na vida.

Ustra foi um dos notórios torturadores da ditadura. Fez o que fez porque acreditava ter nas mãos o destino do mundo contra vítimas que considerava “ordinárias”. Queria salvar o país dos comunistas. Era só um assassino.

Há outros livros na lista que Bolsonaro pode se aventurar. Romances históricos, como “Ainda estou aqui”, de Marcelo Rubens Paiva, que retrata a retirada do convício familiar de um pai que a ditadura declarou inimigo. Tem distopias como “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, sobre um mundo onde meninos vestem azul e meninas são odiadas e condenadas a gerar filhos como animais. E leituras mais leves, como "O Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry – um manual sobre afeto e responsabilidade pelo mundo, por menor que ele seja. 

Mas nenhuma obra vem tanto a calhar quanto “Crime e Castigo”. Tivesse lido antes, talvez Bolsonaro não se tornasse a figura dostoyevskiana que se tornou desde os tempos de militar: solitário, perturbado, delirante, cheio de culpa, medo e mania de perseguição. Ainda assim, convicto de que paira acima da moral comum.

A leitura pode ser uma cura. Um encontro com a própria consciência. Ou a maior das torturas. 

*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG


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