
Fernanda Torres, atriz principal do primeiro filme brasileiro a levar o Oscar, protagonizou uma propaganda de chinelo Havaianas levada ao ar neste início de verão. Era o encontro de duas grifes, uma representando o cinema brasileiro; outro, o design de uma identidade cultural-- e conhecido no mundo todo.
O modelo, feito de borracha e tiras em forma de”Y”, é chamado lá fora de “chinelo brasileiro”(ou “Brazilian flip-flops”) – mesmo tendo sido inspirado nas sandálias zõri. Sim, vem daí a textura do solado que imita os grãos de arroz, cuja palha serve como matéria-prima do similar japonês.
A propaganda deveria juntar dois símbolos nacionais, mas os patriotas de ocasião não querem saber nem de chinelo, muito menos de cinema.
Isso porque, na tal propaganda, Fernanda Torres diz que não deveríamos entrar com o pé direito em 2026.
A partir deste corte, a turma bolsonarista, que já não gostava do trabalho da atriz -- conhecida por se engajar na defesa da democracia, como fez Eunice Paiva, a personagem que ela interpreta em “Ainda Estou Aqui” --identificou na frase, fora de contexto, uma mensagem subliminar.
Era como se, em ano de eleição, ela mandasse os eleitores se converterem à esquerda.
Quem vê a polêmica imagina que na sequência ela veste uma boina e sai fazendo selfie, como a thread da moda, com ícones da luta armada, como Che Guevara e Fidel Castro. Todos de chinelos.
Na verdade a mensagem dela é para começar o ano com os “dois pés” – entrar com tudo, arrebentar, fazer de 2026 o seu ano, etc. Para bom entendedor, a expressão era óbvia, mas a turma de Jair Bolsonaro nem quer entender nem quer explicar.
Usou o trecho fora de contexto para inaugurar uma campanha contra a atriz, os chinelos, a esquerda e tudo o que associam como inimigos do país.
Resultado: quem não tinha ouvido falar da propaganda agora ouviu.
E quem não tinha ideia do que dar de presente de Natal para aquele amigo/a descolado/a que não gosta de vestir nem de beijar botinas agora tem.
O boicote da turma deve ganhar a aderência de um total de seis pessoas, todas da bancada do PL – entre eles Nikolas Ferreira e Bia Kicis, que já não gostavam de cinema – leia-se da cultura nacional – e agora preferirão esperenar nas redes descalços, de meias ou galochas.
O boicote vai dar certo, sim.
Confia.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG