
Zezé di Camargo foi às redes sociais pedir para que o especial de Natal gravado por ele e convidados no SBT fosse cancelado. A razão seria a presença do presidente Lula (PT) e o ministro Alexandre de Moraes, do STF, na cerimônia de inauguração do SBT News, novo canal da emissora fundada por Silvio Santos, dias antes da exibição, previsto para quarta-feira (17) à noite.
Zezé, que num passado nem tão distante subia no palanque para cantar e fazer campanha para Lula, é um dos apoiadores mais notórios de Jair Bolsonaro.
O chilique, claro, repercutiu. Numa primeira camada, o sertanejo parecia encarnar aquele tio ignorante que consumiu tanta informação de procedência duvidosa no WhatsApp que devastou as relações sociais do entorno. Trocou uma vida social minimamente digna pela guerra contra moinhos e inimigos imaginários. No caso de Zezé o prejuízo é também financeiro – presumindo-se que havia um contrato entre ele e a emissora onde se tornou persona non grata.
Mas a questão é maior que isso. Zezé não encarna só o doidinho do bairro que fica gritando que o fim do mundo, com Lula e o PT no comando, está próximo.
O vídeo em que ele dispara contra as filhas de Silvio Santos é uma aula de violência.
A primeira covardia é o próprio meio em que ele decidiu comunicar a decisão. Ele poderia ter feito tudo por telefone, de maneira discreta e sem alarde. E falado do incômodo sem publicizar a suposta superioridade apresentada como uma performance para uma plateia radicalizada.
Em vez disso, o que vemos ali é um homem feito dizendo que as mulheres, agora responsáveis por administrar o império do pai fundador, não estão aptas para o posto. A certa altura ele joga uma cartada bíblica dizendo que elas cometem o pecado de não honrar pai e mãe. E que, como sujeito digno do Reino (aqui um grifo meu), ele não é obrigado a aceitar nem o suposto pecado nem o/a suposto/a pecador/a.
Feio, muito feio. Se tivesse lido a Bíblia saberia que Jesus jamais falou assim. Pelo contrário: mandava atirar a primeira pedra quem nunca tivesse pecado.
Aqui a camada se aprofunda. Zezé diz que as gestoras da emissora – Daniela, Patricia, Rebeca e Renata Abravanel – se “prostituíram” por aceitar tais convidados na própria casa. E que isso vai de encontro com o que pensava o próprio pai. Outro recibo de ignorância: Silvio Santos podia pensar e dizer o que quisesse em privado. Em público abraçava o poder de onde viesse desde a ditadura.
Quem assiste ao choro de Zezé imagina que Lula e Alexandre de Moraes ocuparam os estúdios do SBT e colocaram Karl Marx como atração da Porta da Esperança. O contato ali foi institucional, como teria sido caso Bolsonaro fosse ainda o presidente.
Zezé diz que não consegue aceitar, conviver ou se associar com quem pensa diferente. E isso diz mais sobre ele do que sobre as mulheres que ele decidiu atacar.
Ele falaria assim com Silvio Santos ou outro homem de negócios? Sei não.
E o que exatamente ele deplora na presença dos convidados? Alguma ação governamental específica ou o fato de que grupos progressistas, de alguma maneira empoderados no atual governo, representam o que ele e outros amigos sertanejos tanto temem: a ideia de que não são o centro do mundo nem tem carta branca para tratar mulheres como tratam – fora das músicas, é claro – sem ser ao menos questionados?
Pelo caminho oposto, Zezé conseguiu o que queria. A presidente do SBT, Daniela Beyruti, exigiu uma retratação, que não veio. E cancelou o especial de Natal com o sertanejo. Mostrou quem é quem manda e inverteu a ordem dos fatores para produzir o mesmo resultado: é a emissora que não quer mais lidar com gente assim..
Zezé pode espernear como quiser. Mas este mundo em que ele fala e uma mulher obedece e/ou pede desculpas não existe mais.
Tem uma fila de outros homens desconectados como ele para chorar um no ombro do outro. A trilha sonora, pelo menos, é bastante apropriada.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG