
Há duas semanas, durante as celebrações de Sete de Setembro, ativistas e movimentos sociais chamaram uma manifestação na Praça da Republica, centro de São Paulo, para defender a soberania nacional, atacada por Donald Trump, e pressionar o Congresso a acelerar as votações de pautas como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e o fim da escala 6 por 1.
Os atos reuniram não mais do que 9 mil pessoas, e nas redes só se falava de outra coisa.
Perto dali, na Avenida Paulista, bolsonaristas atenderam em peso ao chamado de Silas Malafaia a poucos dias da sentença do Supremo Tribunal Federal sobre o núcleo 1 da trama golpista.
Por lá, cerca de 40 mil pessoas desfilaram com a bandeira dos Estados Unidos e ouviram Michelle Bolsonaro chorar ao contar sobre a dura vida do marido, em prisão domiciliar preventiva. Ouviram também o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), subir o tom contra Alexandre de Moraes.
Sobre o carro de som teve ainda oração, gritos contra Alexandre de Moraes eagradecimentos a Donald Trump por prejudicar a economia brasileira em troca da liberdade dos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
As ruas pareciam ter dono, e de lá saíram as sinalizações para o Congresso fazer exatamente o que fez na semana que passou.
Quem caminha fazendo cálculo eleitoral imaginou que a agenda positiva, expressa nos cartazes dos atos na República, podiam ser deixada de lado para priorizar um acordo com bolsonaristas que se amotinaram na volta do recesso e gritaram “daqui não saio, daqui ninguém me tira”.
Pesquisas de opinião mostravam que a anistia a Bolsonaro não tinha tração popular como diziam os fãs de Trump, mas os líderes do Centrão, Arthur Lira (PP-AL) à frente, acharam que seria uma boa hora para chantagear a extrema-direita e dizer: “ok, colocamos seu projeto impopular em votação se vocês apoiarem o NOSSO projeto impopular. A esquerda está dormindo e pode esperar”.
Foi assim que Hugo Motta (Republicanos-PB), o preposto de Lira na presidência da Câmara, avançou com a PEC da Blindagem, que passaria desapercebida com esse nome neutro se grupos mobilizados, e artistas atentos, não fossem às redes, e depois às ruas, dizer que aquilo era carta branca para o crime e a bandidagem. Aprovada na Câmara, a PEC, como se sabe, dá aos parlamentares a prerrogativa de autorizar ou não operações policiais ou ações penais contra os pares.
Não é pouca coisa quando muitos deles estão perto de serem pegos com a boca na botija nas investigações sobre desvio de emendas parlamentares.
O escândalo acendeu alertas e levou uma multidão para as ruas no domingo (21). Foram mais de 40 mil pessoas no Rio e outras 40 mil em São Paulo, sem contar outras 16 capitais onde grandes manifestações foram registradas, como Salvador (BA) e Belo Horizonte (MG).
Os atos reuniram Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque e outros gigantes da música brasileiro para cantar músicas de protestos em Copacabana. Tudo isso quase 60 anos após o trio puxar o coro da marcha dos Cem Mil contra a ditadura, em 1968. Dessa vez eles mudaram o alvo e ajudaram a chacoalhar o Congresso.
Até bolsonaristas que negam a circunferência da terra admitiram que a esquerda empatou o jogo com os atos e que o clima para as votações no Legislativo agora é outro.
Óbvio: com a sabotagem de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, Lula (PT) e companhia ganharam de presente o discurso nacionalista que até então estava no colo dos patriotas que não gostam do Brasil. Com Hugo Motta, retomaram o discurso contra a corrupção.
Parlamentares que endossaram a bandidagem foram lembrados, com nomes e rostos, nos cartazes Brasil afora. E deixaram com o Senado a pá e a cal para enterrar as propostas.
O espírito de corpo dos parlamentares, claro, tentará reagir e dar outros nomes e justificativas para o que não tem nome nem justificativa. Mas o calendário eleitoral é ainda mais forte.
Instinto de sobrevivência tem limites. O cálculo agora é que não adianta negociar a blindagem hoje e perder o foro privilegiado em 2026. Este é o maior recado das manifestações de domingo até aqui.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG