O Brasil tem a chance, a partir da semana que vem, de fazer um ajuste de contas com o próprio passado durante o julgamento de Jair Bolsonaro (PT) e dos outros sete réus do chamado núcleo central da trama golpista.
Este passado está enraizado em grupos políticos radicalizados e também nas Forças Armadas. É o passado autoritário que no presente se converte em perseguição aos “inimigos internos” e torna permanente nosso DNA golpista.
Ao longo dos anos o país optou pela conciliação com gente do tipo para que o jogo seguisse. O perdão pode funcionar como dispositivo de transcendência na leitura cristã, mas no contexto político é um manancial de instabilidade que sempre colocou em risco o equilíbrio democrático. Não é fácil viver numa democracia com tantos torturadores vivos e à solta. Eles têm os seus filhotes.
É este equilíbrio meia boca que Bolsonaro e companhia tencionaram ao tentar permanecer no poder a partir de um plano que incluía decreto de estado de sítio, instalação do caos (vide 8 de janeiro), prisão de ministros do STF e até a morte dos sucessores.
Tudo isso está desenhado na denúncia da Procuradoria Geral da República.
A provável condenação do grupo, na semana que vem, é um ajuste de contas e um encaminhamento possível de futuro. Será a vacina contra lideranças autoritárias que decidirem botar fogo no tabuleiro toda vez que perderam o jogo (no caso, as eleições).
Bolsonaro foi o primeiro presidente eleito que prometia dar um golpe de Estado se um dia vestisse a faixa.
Foi também o primeiro a não admitir a derrota nas urnas e (tentar) cumprir a promessa feita em seus tempos de deputado de baixo clero.
A Primeira Turma do Supremo tem a oportunidade agora de começar a tirar de cena o entulho autoritário (que tem bases na ditadura e sucessores com mandato eletivo, outros inelegíveis) disfarçado de conciliação e mostrar que lugar de golpista é na cadeia.
Falta combinar com o Congresso, onde ganha forma um projeto de anistia que livraria a cara dos futuros condenados enquanto eles ainda são julgados.
Isso seria inédito na História do Brasil, mas ninguém ali está preocupado em como ficará para a História no futuro.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), brecou o projeto como pode. Tirou da pauta desta semana não se sabe exatamente se por convicção ou para não ficar tão feio votar, numa semana tão decisiva, um projeto que beneficia tão descaradamente os réus.
Motta é uma liderança fraca.
Joga em várias posições e de noite vai jantar com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) – hoje o maior fiador do projeto.
No Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) também está sob pressão.
Aliado de Lula (PT), ele garante que o projeto gestado pelos bolsonaristas não tem vez na Casa. Mas dá a entender que topa botar em campo um projeto alternativo que não livra os acusados da cadeia mas aliviaria o tempo de prisão. Com isso uma nova conciliação se encaminha.
Sim, é esse o status da conversa hoje, e ela ganhou o eco de PP e União Brasil, partidos que eram da base aliada de Lula, com ministros indicados em cargos-chefe e que acabam de anunciar o desembarque do governo. Hoje desequilibram o jogo no Congresso ao lado do PL, e, com mais de 300 deputados na mão, podem votar o que quiserem. Inclusive a manutenção de uma impunidade histórica.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG