O governador de SP, Tarcísio de Freitas
Divulgação/ Governo de São Paulo
O governador de SP, Tarcísio de Freitas


Deve ser a tranquilidade da agenda em São Paulo que permitiu ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) viajar nesta terça-feira (2) a Brasília pela quarta vez nas últimas quatro semanas.

Não é que a operação, na semana passada, da Polícia Federal contra o esquema criminoso entre PCC e agentes financeiros da Faria Lima – e fazendeiros sucroalcooleiros da região de Ribeirão Preto – não mova as sobrancelhas do chefe do Executivo paulista. Ele provavelmente só não sabe que as encrencas aconteçam em sua jurisdição. Normal para quem acaba de chegar à cidade. Tarcísio nasceu no Rio e ainda está sendo apresentado ao estado que jurou governador.

Sem outras prioridades visíveis, Tarcísio pode se dedicar em suas viagens a uma questão muito cara aos paulistas: a prisão do ex-chefe Jair Bolsonaro (PL).

Na última visita à capital federal ele entrou com as duas travas da chuteira na pauta da anistia aos golpistas de 8 de janeiro.

Até adversários admitem que desde então os ventos mudaram em favor da medida – que pode alcançar Bolsonaro antes mesmo da condenação na Primeira Turma do STF por liderar uma tentativa de golpe de Estado.

Tarcísio era criticado pelo núcleo-duro do bolsonarismo – a começar pelos filhos do ex-presidente, passando por Silas Malafaia – por não bater o suficiente no STF (leia-se  Alexandre de Moraes) e não se engajar na pauta da anistia.

Não seja por isso, pensou o governador.

Com a prisão domiciliar do ex-presidente, ele assumiu a lacuna e se colocou no jogo da sucessão para 2026 – por mais que negue.

Tirando ranço do eleitorado paulista, talvez cansado de eleger governadores que abandonam o posto e miram o Planalto, Tarcísio busca quebrar as resistências dos radicais e se posicionar como fiador da maior causa da turma.

Abre mão da fama de moderado, que pra bom conhecedor não dura até a segunda página, e vira um bolsonarismo-raiz, desses que adoçam o café da manhã com cloroquina.

Não sem uma esperteza na jogada. 

Com Tarcísio em campo, PP e União Brasil ficaram à vontade para desembarcar do governo Lula e amarrar o barco no virtual candidato do Republicanos. E vice-versa.

Ele partiria, assim, com os cerca de 20% de eleitores fieis a Bolsonaro e cresceria nas franjas de eleitores indecisos – e fatalmente assustados se o candidato da turma fosse um filho de Jair Bolsonaro. 

A anistia é um bode na sala em que qualquer sinal de recuo já é vitória para os extremistas.

A ideia não é livrar Bolsonaro da cadeia, mas de passar um longo tempo em cana. Ele pode até estar livre em 2026, mas a proibição de disputar as eleições (fruto de uma condenação em outra frente, o TSE, por usar espaço e recursos públicos para atacar as urnas) permaneceria intacta.

O lance permitiria a Tarcísio manter Bolsonaro fora de jogo e ainda ficar com os eleitores órfãos do ex-mandatário.

Falta saber se os adversários vão deixar.

Rui Falcão, deputado do PT por São Paulo, acaba de acionar o STF para pedir uma investigação sobre as andanças de Tarcísio por Brasília, que incluiu até encontro com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).

Ele é acusado de obstruir a Justiça enquanto o STF prepara a sentença do principal beneficiado do projeto que tenta emplacar no muque.

Cada passo de Tarcísio em direção ao Planalto é calculado. E também uma prova produzida contra si.


*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG

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