O ex-presidente Jair Bolsonaro
Reprodução/redes sociais
O ex-presidente Jair Bolsonaro


Durante cerca de seis meses o Brasil conviveu com a possibilidade de Donald Trump disparar uma bazuca apontada em direção a Brasília desde que tomou posse como presidente dos Estados Unidos, em janeiro.

A bazuca, aqui, é meio linguagem figurada e meio arma da diplomacia do tuíte do chefe da Casa Branca.

Não foram disparos como os que alvejaram instalações nucleares no Irã em parceira com Israel, no mês passado.

Era a possibilidade de se intrometer e colocar o peso da nação mais rica (e, por enquanto, mais poderosa) do Planeta na balança entre Jair Bolsonaro (PL), seu aliado na região, e o governo Lula (PT), maior interessado no julgamento da trama golpista pelo Supremo Tribunal Federal.

Trump pode não saber onde fica a capital brasileira, mas qualquer disputa interna será distorcida caso entre em campo o peso da fala de um presidente norte-americano.

Foi o que aconteceu quando, desde o fim de semana, Trump decidiu sair em defesa de Bolsonaro, um perseguido político no Brasil nas palavras do líder republicano.

Trump repetiu a ladainha por dois dias seguidos.

No terceiro, encarregou o ataque à representação diplomática dos EUA no Brasil, que endossou, em nota oficial, a opinião do presidente.

Como resultado, o Itamaraty convocou o encarregado de Negócios da embaixada, Gabriel Escobar, a prestar esclarecimentos sobre a nota.

Na linguagem diplomática, nada pode acusar mais a insatisfação de um país em relação a outro do que convocar um representante para conversar. O passo seguinte é o rompimento.

(O representante comercial irá pessoalmente tomar a reprimenda porque Trump sequer designou um embaixador para atuar em Brasília).

A nota que criou o enrosco diplomático diz que “Jair Bolsonaro e sua família têm sido fortes parceiros dos Estados Unidos” e que “a perseguição política contra ele, sua família e seus apoiadores é vergonhosa e desrespeita as tradições democráticas do Brasil.”

Um dia antes, Trump havia pedido que Bolsonaro fosse "deixado em paz". Foi a maior intromissão externa em questões nacionais em muito tempo.

Trump não mirou a bazuca para cá porque finalmente leu o processo e se apiedou do réu. (Se tivesse lido, ele saberia que Bolsonaro tem as digitais em cada passo da tentativa descarada de golpe de Estado ao fim das eleições).

O chefe da Casa Branca só foi a campo após o presidente Lula recepcionar, no Rio, um encontro da cúpula dos Brics, o grupo de países reúne a China e países emergentes como Rússia, Índia, África do Sul e o próprio Brasil.

Uma das medidas defendidas pelo grupo é a adoção de medidas para enfraquecer o uso do dólar no comércio internacional.

Isso enfraqueceria não só a moeda norte-americana. Enfraqueceria a própria capacidade norte-americana de mediar, transnacionar e ditar os rumos do Planeta. 

“Eu acho que o mundo precisa encontrar um jeito de que a nossa relação comercial não precise passar pelo dólar. Quando for com os EUA, ela passa pelo dólar. Quando for com a Argentina ou China, não precisa. Ninguém determinou que o dólar é a moeda padrão. Em que fórum foi determinado?’, disse Lula em coletiva de imprensa durante a Cúpula do Brics.

Para Trump, esta foi a declaração de guerra que o levou a entrar em campo contra Lula – agora não mais um oponente ideológico desprezado, mas uma ameaça aos interesses de seu país.

"Qualquer país que se alinhar às políticas antiamericanas do BRICS pagará uma tarifa ADICIONAL de 10%. Não haverá exceções a esta política”, disse Trump em no Truth Social já no domingo.

Como pano de fundo está a preocupação de Trump em conter a influência da China no cenário global.

Daí a importância de reabilitar Jair Bolsonaro como líder político. Ele seria, em tese, seu representante na construção de um muro que faria do Brasil uma barreira de contenção aos interesses de Pequim da América do Sul.

Para isso ele precisa estar em campo em 2026. Isso explica por que Alexandre de Moraes, relator da ação penal do golpe no STF, está também na mira.

*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG


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