Registro de uma urna eletrônica em funcionamento
Reprodução/ TRE-RN
Registro de uma urna eletrônica em funcionamento

Muito se falou recentemente sobre a segurança das urnas eletrônicos e do atual sistema eleitoral do Brasil. Lançado em 1996, o equipamento passou a ser alvo do presidente Jair Bolsonaro (PL) e da sua militância , que sempre que pode, coloca em dúvida a contagem dos votos.

A desconfiança do presidente, no entanto, é infundada, segundo aponta o ex-secretário de TI do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Giuseppe Janino, que participou da implantação do sistema digital de votação.

"A urna eletrônica veio para solucionar um problema no processo tradicional: a intervenção humana, e o que decorre disso. Nós tínhamos um processo com baixíssima credibilidade porque levava-se semanas para o resultado ser apresentado, e quando se apresentava, ele era sempre acompanhado de muita suspeição. A urna se tornou um modo eficiente, eficaz e confiável de voto, porque na medida em que o processo eleitoral embarcou na tecnologia, passou a evoluir na mesma velocidade, utilizando todas as funcionalidades que esse aspecto oferece, como a segurança, verificação de integridade, criptografia, entre outros", explica Janino.

A mudança do voto impresso para o registrado de forma digital, segundo ele, foi uma resposta a necessidade do próprio país. Ele cita que além dos 46 países que votam exclusivamente em urnas eletrônicas, há outros que operam com os equipamentos de forma parcial. A adoção completa pode ainda não ter acontecido pela falta de eventos que exigissem uma transformação total.

"Certamente não tiveram o motivador ligado às questões de fraude que o Brasil teve. É bom lembrar que países ditos desenvolvidos adotam sim, urnas eletrônicas. Dos 50 estados norte-americanos, ao menos 19 utilizam urnas semelhantes às do Brasil, certamente motivados pela nossa experiência".

Nos quase 26 anos de utilização das urnas, Janino afirma que não houve nenhum episódio de grande relevância que indicasse algum tipo de fraude nos equipamentos. "Temos uma história que demonstra que o nosso processo eleitoral, capitaneado pela urna eletrônica, é seguro", reiterou.

Sistema independente

Apesar de reconhecer que nenhum sistema está 100% blindado, Janino aponta que o TSE promove verdadeiras maratonas de testes nas urnas eletrônicas.
O equipamento não tem conexão com a internet, e para hackeá-lo, seria preciso, segundo o especialista, estar com ele em mãos - uma ação à distância não resolveria - e quebrar as mais de 30 barreiras físicas e lógicas manualmente, uma a uma. 

"Essa história de que um hacker que invade a Nasa e o FBI invadiria com a mesma facilidade a urna eletrônica é uma falácia. A urna não está ligada a nenhum dispositivo de rede ou internet. Para tentar burlar o sistema, seria preciso vencer todas as barreiras de segurança individualmente de posse de uma urna, e são mais de 30 barreiras para que o sigilo do voto seja quebrado", explica ele, que também esclarece os procedimentos estabelecidos pelo TSE para que a tecnologia não fique obsoleta, e seja colocada à prova ano a ano.

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"Os testes para hackear a urna eletrônica são feitos regularmente desde 2009. Hackers são convidados e podem tentar quebrar essas barreiras. Esses testes de segurança são abertos um ano antes das eleições, e os interessados se inscrevem, recebem informações privilegiadas, inclusive como funcionam os programas-fonte, e com todas essas informações em mãos - e algumas facilidades, já que alguns dispositivos de segurança são desativados - tentam durante uma semana. Porque a justiça eleitoral faz isso? Justamente para aproveitar a contribuição de especialistas e peritos. À medida que passam por uma ou duas barreiras, isso é anotado e elas são fortalecidas. Depois, eles são chamados novamente para testar os reparos. É um processo extremamente democrático, participativo, eficiente e eficaz no sentido de promover a melhoria contínua da urna eletrônica", defende.

Voto impresso

Durante a campanha contra o voto eletrônico, militantes bolsonaristas chegaram a propor a emissão de um comprovante de votação com o registro do voto do cidadão, para que fosse possível uma "conferência". Essa tática já foi adotada no passado, e o especialista esclarece porque não deu certo.

"Impressoras são dispositivos eletromecânicos. Sabe-se, cientificamente, que eles falham muito mais que os eletrônicos, principalmente submetendo-o a uma logística. As urnas viajam milhares e milhares de quilômetros, de aviões ou de jegues, passando por variação de temperatura, recebendo muitos impactos. Chegando no local de votação, o papel embolava, a impressora não funcionava. Trava a urna eletrônica. Verificamos que não era confiável", lembra.

"O aspecto mais grave, no entanto, era que com a impressão do papel, voltava a mão do homem ao processo. Esse papel é impresso, é colocado em uma mesa, e em cima dessa mesa o homem confere. Assim, trazemos de volta o que conseguimos abandonar há 30 anos, que era o foco de fraudes, as mesas apuradoras, onde se conseguia subtrair, incluir ou adulterar a informação do papel. Esse é o grande problema, trazer de volta um cenário que se conseguiu abandonar com muito custo, e que era fonte das fraudes no processo eleitoral", prossegue.

"Chegamos a conclusão que esse método de auditoria não é compatível com o método que evoluiu, que se tornou totalmente digital. E eu vou dar exemplos: imprime o papel, registra digitalmente. Pega esse papel e coloca em cima de uma mesa. Não é preciso ser muito inteligente para subtrair ou incluir um papel. No digital, para chegar a um dado como esse, quebrar essa criptografia, você precisa de muita inteligência, um super computador trabalhando. Com essa informação no papel, basta um pouquinho de habilidade e alguém que o puxe. Nessa altura, chegamos ao cenário de que o voto no papel não bate com o digital. E aí, o que podemos fazer? Confiar no papel? Se confia no papel, o que a urna eletrônica está fazendo na história? E se confia na urna, o que o papel está fazendo aqui?", questiona.

Janino afirma que duvidar da lisura do processo de votação soa como desrespeito aos servidores que trabalham para que as eleições aconteçam de forma íntegra e principalmente, sem fraudes.

"Eu, como um dos servidores que trabalhou para tornar esse processo íntegro e seguro, e até mesmo os brasileiros bem informados, nos sentimos ofendidos com isso. O Brasil é referência no mundo, referência no processo de votação, e uma parcela pequena de brasileiros tenta desqualificar o que conseguimos conquistar, que é de reconhecimento mundial. Ignoram todos os benefícios que essa transformação trouxe para o país, no sentido da credibilidade e da sustentação de um regime democrático. São histórias infundadas, sem nenhuma base, sem ter acompanhamento de nenhuma prova. Isso é extremamente triste."

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** Filha da periferia que nasceu para contar histórias. Denise Bonfim é jornalista e apaixonada por futebol. No iG, escreve sobre saúde, política e cotidiano.

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