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Agência O Globo / Zimel
Ex-juiz Sergio Moro deixou governo Bolsonaro oficialmente na manhã desta sexta-feira (24)

Tornado símbolo do combate à corrupção no Brasil pela atuação na Operação Lava-Jato, o ministro Sergio Moro colecionou constrangimentos à frente do Ministério da Justiça e, como resultado, viu nascer uma barreira para dois projetos futuros ainda no campo das hipóteses. Um deles é a eventual indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF), que, diante da virulência de seu discurso contra atos do presidente Jair Bolsonaro, fica totalmente inviável. A outra é a construção de uma eventual candidatura presidencial. Moro era muito bem avaliado pela opinião pública como ministro, mas ao sair do governo perde o palanque que o ajudava a se manter como um dos favoritos à sucessão de Bolsonaro nas pesquisas.

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Fora do governo, Moro ficará livre para decidir se atuará na iniciativa privada ou se assumirá de vez que a política é a sua meta, algo que ele sempre evitou admitir publicamente. A Lava-Jato, no entanto, permitiu a ele construir um importante capital político, verificado inclusive em pesquisas eleitorais.

Moro entrou para o núleo do Palácio da Alvorada como um trunfo do novo governo, que se apropriou da imagem do ex-juiz da Lava Jato . Como ministro da Justiça, no entanto, não conseguiu fazer o que mais queria, que era tomar medidas dentro da máquina pública para tornar mais difícil a corrupção. Desde o primeiro momento, Bolsonaro fez questão de frisar ao ex-juiz que o chefe era ele, e, portanto, era quem daria a palavra final.

Diante da popularidade de seu subordinado, Bolsonaro passou a dar cartadas para tirar o ex-juiz de uma futura lista de presidenciáveis, desidratando sua atuação. Logo na escolha de nomes para dar suporte ao trabalho do Ministério , o então ministro começou a descobrir que não seria tão fácil trabalhar. Ao indicar a cientista política Ilona Szabó como suplente para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, viu reação feroz da ala mais conservadora e estridente da militância bolsonarista atacar sua decisão. Foi o próprio presidente quem ligou para que ele desfizesse o convite, e Moro recuou.

Na agenda de Moro , a prioridade era fazer um pacote anticrime , que endurecesse as penas e medidas contra o crime organizado e de colarinho branco, uma das linhas de frente da operação Lava Jato, que completou seis anos em março último com deflagração de 70 fases, 1.443 mandados de busca e apreensão foram expedidos, 500 pessoas foram acusadas, 175 condenadas e 293 presas. Juntas, as penas somam 2.286 anos de prisão.

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Descobriu que essa não era uma agenda prioritária do presidente. O pacote foi modificado na Câmara dos Deputados e sequer os aliados mais próximos de Bolsonaro se uniram na defesa das medidas. O presidente chegou a sugerir que Moro aguardasse e segurasse o projeto para não atrapalhar o andamento das reformas.

Como tem sido comum no governo, Bolsonaro dizia uma coisa para Moro , mas na prática fazia outra. Uma delas foi a da completa autonomia para compor o ministério. Embora tenha afirmado que daria plena liberdade para Moro compor sua equipe do Ministério da Justiça e Segurança Pública, passou a repetir que a palavra final era dele.

O primeiro burburinho foi o a troca do diretor da Polícia Federal do Rio. Bolsonaro queria no cargo um homem de sua confiança e de sua família, criando embate direto com o chefe da Polícia Federal, Maurício Valeixo. Diante da insistência de Moro para manter Valeixo à frente da Polícia Federal, o presidente recuou - mas não abandonou seu objetivo e, agora, optou por enfrentar o próprio ex-juiz e deixar que ele saia do governo.

Outra disputa perdida pelo ex-juiz foi a do Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Inicialmente vinculado ao Ministério da Justiça, o Coaf reúne informações financeiras capazes de desvendar esquemas de corrupção e movimentações do crime organizado. Os relatórios do órgão foram amplamente usados na Operação Lava-Jato, mas Bolsonaro preferiu deixar o órgão fora do controle de Moro.

O ministro chegou a procurar o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, para pedir que ele voltasse atrás na decisão que restringiu o compartilhamento de relatórios do antigo Coaf - agora chamado Unidade de Inteligência Financeira (UIF) - com o Ministério Público e a Polícia Federal, o que deixou Bolsonaro ainda mais irritado - e apreensivo com a atuação de seu ministro.

Por trás da disputa pelo Coaf e pelo compartilhamento de informações está a investigação de Fabrício Queiroz, amigo de décadas da família Bolsonaro, que passou a ser investigado depois que o Coaf identificou várias transações suspeitas feitas por ele - uma delas um cheque de R$ 24 mil depositado na conta de Michelle Bolsonaro, hoje primeira-dama.

Uma das apostas de Moro, ao aceitar ingressar no governo Bolsonaro, era ser indicado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro fez a promessa logo no convite para que ele se tornasse ministro. A ideia era repetir a trajetória de Alexandre de Moraes.

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O ex-juiz sabia que, pelo funcionamento da magistratura, ele demoraria muito para conseguir um cargo de destaque, apesar de ter se tornado famoso no mundo todo por sua atuação na Lava-Jato. Nem isso, porém, foi mantido. Bolsonaro afirmou que sua primeira indicação para o cargo seria de alguém "extremamente evangélico", acenando, mais uma vez, para a ala mais conservadora de sua militância, em detrimento das promessas feitas ao ex-juiz.

Nos últimos tempos, Moro passou a se sentir constrangido não só com as agruras de sua pasta, mas com a atuação do próprio presidente Bolsonaro e de alguns dos outros ministros diante da pandemia do coronavírus. A ação da militância bolsonarista e forma como o governo fritou o ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta também fez o ministro da Justiça refletir sobre sua permanência no governo.

A interlocutores, Moro repetia sempre que, para ele, era cada vez mais difícil entender a postura do presidente diante de uma crise tão séria na saúde pública.

O Ministério da Justiça demorou a agir na pandemia do coronavírus. Não fez a tempo controle de aeroportos e de fronteiras. As medidas, ainda que tímidas, foram tomadas quando já não fariam muita diferença. O controle nas fronteiras terrestres, por exemplo, foi feito muito mais pelo receio de Bolsonaro de o Brasil ter de dar assistência médica à população pobre de outros países do que para proteger os brasileiros.

A nova investida de Bolsonaro sobre o presidente da Polícia Federal foi a gota d'água para Moro, que vinha cada vez mais humilhado dentro de um governo que, aos poucos, ele aprendeu a conhecer e divergir.

Ficar mais tempo ao lado do Bolsonaro deixou de ser uma coletânea de prejuízos imediatos. Passou a ser um prejuízo de longo prazo para o ex-juiz, que mantém sua popularidade e pode, longe dos radicais bolsonaristas, pensar em algo que ele, quando entrou no governo, achava muito dificil: estudar se compensa ser candidato a presidente em 2022.

Ações anticorrupção ganharam evidência com Moro na Lava-Jato. Ao concentrar as investigações no governo do ex-presidente Luiz Inácio lula da Silva, o então juiz da Lava-Jato chamou a atenção da parte mais conservadora da populaçao. Nao demorou para que a Lava-Jato se aliasse, por meio dos procuradores da força-tarefa de Curitiba e do próprio Moro, a alguns movimentos surgidos em torno da bandeira anticorrupção.

Durante o período em que Moro esteve à frente da 13 Vara Federal do Paraná, a Lava-Jato levou para a prisão executivos das maiores empreiteiras brasileiras, entre eles o herdeiro da Odebrecht, Marcelo Odebrecht. Foram abertas pelo menos 29 ações penais, com cerca de 150 condenados. Muitos deles não foram presos porque assinaram acordo de delação premiada.

Foi a prisão do ex-presidente Lula , no entanto, que reforçou a fama de juiz símbolo do combate à corrupção no Brasil. O petista foi o primeiro presidente eleito a ser condenado epreso por este tipo de crime. Durante a Lava Jato, Moro sempre cobrou do Executivo medidas que ajudassem a impedir a corrupção dentro da máquina estatal. Ao aceitar o convite de Bolsonaro, nutria a intenção de ajudar o governo a criar barreiras que ajudassem a impedir novos atos de corrupção. Não conseguiu.

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Essa semana, com a aproximação de Bolsonaro de parlamentares do Centrão, muitos deles investigados na Lava-Jato, Moro percebeu que também nesse quesito os avanços, que sequer aconteceram até agora, seriam cada vez mais difíceis.

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