estragos em Belo Horizonte
Rafael Costa/Brazil Photo Press/Agencia O Globo
Fortes chuvas causaram estragos e mortes em Belo Horizonte

A responsabilidade pela destruição vista em Belo Horizonte desde janeiro deste ano não é apenas das chuvas na avaliação do deputado estadual mineiro João Vítor Xavier (Cidadania). Pré-candidato ao cargo de prefeito da cidade, Xavier afirma que faltou manutenção por parte da Prefeitura. “Belo Horizonte nunca esteve tão suja”, disse.

Segundo o deputado, o prefeito da capital, Alexandre Kalil (PSD) também deixou de fazer obras estruturantes , que poderiam ter evitado os alagamentos, e guardou R$ 1 bilhão para “obras eleitoreiras”.

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Em 2020, Belo Horizonte teve o mês de janeiro mais chuvoso dos últimos 110 anos, o que causou caos em vários bairros. Em Minas Gerais, a Defesa Civil informou que até a última segunda-feira (3), 69 pessoas morreram em decorrência dos temporais que atingiram o Estado. Ao menos 13 delas estavam em Belo Horizonte.

“Belo Horizonte tem dado sinais fortíssimos de má zeladoria nos últimos anos. Nunca esteve tão suja, com tantas pessoas em situação de rua, com as regionais tão abandonadas como estão hoje. Isso cobrou uma conta, agora, da (administração da) cidade”, afirmou o deputado.

Como exemplo, Xavier cita a barragem Santa Lúcia , na região Centro-Sul da capital, que transbordou no último dia 24, e alagou a avenida Prudente de Morais. “Foi uma chuva histórica, foi. Foi uma chuva forte, foi, mas a última vez que fizeram a limpeza da barragem Santa Lúcia foi em 2018”, ressalta.

Ele afirma que na última manutenção, 33% da barragem estava tomada pelo assoreamento, ou seja, contava com apenas dois terços de sua capacidade total. “Imagine quanto foi assoreado de lá (2018) para cá”, questiona.

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Segundo Xavier, a "zeladoria" da cidade que não foi eficaz faz parte do planejamento de curto prazo na caso da prefeitura. No longo prazo, ele critica a falta de obras estruturantes que poderiam ajudar a escoar a água da chuva. 

deputado João vitor Xavier
João Vítor Xavier/Divulgação
Deputado estadual João Vítor Xavier critica enfraquecimento das regionais de Belo Horizonte

“A Prefeitura guardou R$ 1 bilhão, em ano de eleição, para fazer obra de caça-votos , asfaltar rua para vereador, reformar praça para vereador. São obras eleitoreiras como se fazia 50 anos atrás. E não investiu esse R$ 1 bi nas obras que a cidade precisa”, critica.

Procurada, a  Prefeitura de Belo Horizonte afirmou via assessoria de imprensa, que de 2017 a 2019, a “ função saneamento ” teve um orçamento de R$ 1,39 bilhão de recursos próprios (Tesouro Municipal) e foram gastos R$ 1,31 bilhão e que, portanto,  “94% dos recursos previstos” foram executados.

Já nos recursos vinculados, a Prefeitura informa que “ não pode fazer o mesmo raciocínio a partir dos valores orçados”, já que entram nesta conta os créditos já contratados e os empréstimos “em negociação”, mas que nesses três anos “verifica-se a aplicação de praticamente todo recurso recebido dessa origem”.

Regionais “apodrecidas”


Para o deputado, os serviços públicos de Belo Horizonte estão “deteriorados” porque as regionais perderam capacidade de atuação.  “O investimento diminuiu. Tiraram R$ 10 milhões de cada regional e desses serviços de manutenção, como limpeza de córrego , de calha de rio, de boca de lobo . É uma engrenagem. Se a água chega e não tem para onde escoar porque a prefeitura não limpou, vai alagar muito mais rápido”, critica.

“(Houve) o apodrecimento das regionais . Para falar que estavam acabando com apadrinhamento e cabide de emprego , acabaram com as regionais. Não precisa acabar com a regional, acaba com o apadrinhamento. Tiraram o apadrinhamento da regional e colocaram na Afonso Pena”, denuncia Xavier. A avenida Afonso Pena, principal via da capital, é onde funciona a sede da prefeitura.

Já a assessoria da Prefeitura de Belo Horizonte informa que passou por uma reformulação. "Desde 2017 enxugamos os cargos comissionados e acabamos com 14 secretarias", diz. Nessa mudança, as nove regionais da cidade , que funcionam como sub-prefeituras, perderam o status de secretaria.  Segundo a gestão municipal, desde 2017, R$ 400 milhões foram economizados com as reformas nas nove regionais e reinvestidos em “atividades fim”, ou seja, serviços da Prefeitura. 

Para o deputado, porém, elas pararam de funcionar.  “Nessa semana, visitei famílias que estão há 20 dias fora de casa (por causa das chuvas) e até o momento não receberam a visita da assistência social da prefeitura porque esse trabalho era feito pelas regionais”, declara Xavier.

“O cidadão não é cego, ele enxerga. Uma senhora me disse que antes ela ligava para a regional e eles limpavam o rio, o córrego, a boca de lobo. Antes das chuvas, não veio ninguém esse ano . A conta disso chega”, acrescenta.

Problema maior


Outra crítica do deputado à Prefeitura de Belo Horizonte é a “terceirização” para a Copasa da questão do abastecimento de água da capital mineira.

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“Parece meio paradoxal, mas a água que nos assusta agora pode gerar um problema muito maior no futuro pela sua ausência . Belo Horizonte é cercada por mineradoras e barragens. Se tivermos a ruptura de alguma barragem que temos a montante da bacia do rio Das Velhas, não teremos água para tomar”, alerta.

A capital mineira é abastecida de água basicamente pelo rio Paraopeba , afetado pela lama do rompimento da mina da Vale em Brumadinho, e pelo rio Das Velhas .

Uma obra está sendo realizada para mudar o local de captação no Paraopeba, mas segundo o deputado, a cidade já perdeu 40% do volume de água que vinha deste manancial. “Estamos abastecendo 100% (do município), com 60% (da água) que tínhamos dois anos atrás”, explica.

“É outra crítica que faço a gestão do atual prefeito. Ele tinha que estar ao lado do governador liderando essa questão , mas preferiu manter um distanciamento, como quem diz: ‘isso não é problema meu’”, afirma o deputado.

Questionada sobre o que tem feito para garantir o abastecimento de água de Belo Horizonte nos próximos anos, a prefeitura, via assessoria de imprensa, informou que o abastecimento de água e saneamento de Belo Horizonte é responsabilidade da Copasa,  do governo do Estado .

"O prefeito contratou a Copasa, que é do Estado, mas ele é o responsável pelo atendimento final de milhões de pessoas sobre a questão da água. O abastecimento de água é responsabilidade municipal”, ressalta Xavier.

Pré-candidato


Como pré-candidato à prefeitura de Belo Horizonte, João Vítor Xavier afirma que a questão hídrica será uma das suas bandeiras. “Na questão da água e do saneamento básico, Belo Horizonte está vivendo no século passado , na sua primeira metade”, declara.

Para Xavier, perder 40% da água por falta de manutenção nos encanamentos é inaceitável. “Uma mineradora acharia viável perder 10% de sua produção de minério?”, indaga. “Estamos desperdiçando 40% da água, cidades como Lisboa perdem 3,5%”, compara. "Uma coisa que pretendo rever é esse contrato com a Copasa", diz. 

Entre suas pautas para Belo Horizonte, Xavier cita a necessidade de revigorar dois segmentos econômicos: o turismo e a inovação.

“Temos capacidade de ser um hub turístico pelo potencial que está no entorno. Nenhuma cidade no Brasil tem, como Belo Horizonte, em um raio de 70 km, três patrimônios da humanidade : Congonhas, Ouro Preto e a Lagoa da Pampulha. Somado a isso, temos o maior museu a céu aberto do mundo e a serra da Piedade, um importante ponto turístico religioso do País. Precisamos transformar isso em um pacote para atrair o turista, fazer o link com essas cidades para tornar Belo Horizonte um polo turístico”, defende.

Na área de inovação, João Xavier avalia que a cidade  precisa voltar a captar empresas de tecnologia . “Ao invés de explodir, como todos achavam que aconteceria dez anos atrás, nós encolhemos. Belo Horizonte já teve cerca de 600 startups e hoje são entre 300 e 400. A cidade poderia estar inserida (nesse mercado) de maneira mais forte. Fomos pioneiros e infelizmente nos perdemos na incapacidade de protagonizar”, avalia.

João Vítor Xavier iniciou sua carreira política em 2008. Foi vereador e atualmente está em seu terceiro mandato como deputado estadual . Ele é filiado e presidente do Cidadania em Minas Gerais.

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