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Henrique Constantino relatou repasses ilícitos a políticos do MDB em troca de benefícios na Caixa e outros órgãos; ex-presidente é citado na delação

Michel Temer
Marcos Corrêa/PR
Dono da gol assinou delação que atinge o ex-presidente Michel Temer

A delação de um dos donos da companhia aérea Gol , Henrique Constantino, divulgada na semana passada, revelou pagamentos de propina ao ex-presidente Michel Temer (MDB), o ex-ministro Geddel Vieira Lima, o deputado cassado Eduardo Cunha e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Nesta sexta (17), no entanto, o empresário detalhou o acerto feito a Temer.

Segundo o dono da Gol , a reunião em Brasília com Cunha e Henrique Alves foi agendada pelo operador financeiro Lúcio Funaro, responsável por receber os pagamentos ilícitos do grupo. Na ocasião, foi selado um repasse de R$ 10 milhões.

Parte beneficiaria via caixa dois a campanha eleitoral do então emedebista Gabriel Chalita à Prefeitura de São Paulo, naquele ano de 2012, e outra parte também seria repassada a empresas de fachada de Funaro, que abastecia financeiramente o grupo político de Temer e Cunha.

"O Lúcio marcou essa reunião em Brasília com os deputados Eduardo Cunha e Henrique Eduardo Alves, que me levaram para uma reunião onde ficava o gabinete do então vice-presidente Michel Temer, na época também presidente nacional do PMDB ", afirmou o empresário.

Os investigadores que colhiam o depoimento perguntaram se teria ficado claro, durante o encontro, o acerto de R$ 10 milhões. Constantino respondeu afirmativamente: "Eduardo Cunha fez questão de fazer um preâmbulo na reunião, junto com o vice-presidente, falando da nossa contribuição de R$ 10 milhões. (...) Fez questão de falar da nossa contribuição de R$ 10 milhões para a campanha de Gabriel Chalita."

"Ele fez questão de citar que há muito tempo o PMDB não tinha um candidato forte à Prefeitura de São Paulo, e isso era muito importante, e essa contribuição era muito valiosa. Que ele estaria pronto a me defender e ajudar em todos os pleitos que estariam sendo feitos. Eduardo Cunha deixou bem claro que eles estavam trabalhando pra atender os nossos pleitos em algumas demandas legislativas", relatou o empresário.

Liberação do FI-FGTS

Um dos pleitos de Constantino era obter a liberação de R$ 300 milhões do fundo de investimentos do FGTS, o FI-FGTS, para uma de suas empresas, a Via Rondon. Para isso, ele contaria com o apoio do PMDB, que tinha influência política sobre a Caixa. O empresário afirmou que todos os presentes na reunião deram o aval a seus pleitos.

"Tudo isso com aval de todo esse grupo político, capitaneado pelo vice-presidente Michel Temer, Eduardo Cunha, Henrique Eduardo Alves, cujo agente financeiro era o Lúcio Funaro. Isso ficou bem claro na reunião, que havia um alinhamento das pessoas que estavam ali envolvidas", disse.

O empresário afirmou que, apesar de os financiamentos obedecerem critérios legais, os pagamentos posteriores aos políticos tinham caráter “ilícito”. "Na verdade as aprovações poderiam ser lícitas, mas essas contribuições seriam ilícitas", disse.

Os repasses também abasteceram empresas de Eduardo Cunha e os fornecedores da campanha de Chalita. A Defesa de Michel Temer não teve acesso à mencionada delação, que, no entanto, está em poder de jornalista. Como sempre, o vazamento se dá com o propósito de atingir a honra de quem é alvo da delação.

Procurada, a defesa de Temer afirmou: "O ex-presidente afirma, categoricamente, que não participou da reunião referida, e nunca tratou com o delator nem com outra pessoa de doação via caixa 2, muito menos vinculada à prática de ato ilícito, seja no âmbito do Executivo, seja no do Legislativo. Tampouco se recorda de ter recebido a visita desse delator".

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A defesa de Henrique Alves afirma que ele nega ter se encontrado com o dono da Gol , Henrique Constantino. A defesa de Cunha também diz que nega as acusações: "A defesa de Eduardo Cunha nega as acusações, ressaltando que já se defende em relação a tais fatos no âmbito judicial, onde demonstrará sua inocência".