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Comandante máximo do Exército reconhece "risco sério" de que eleição do ex-capitão leve à politização de quartéis, mas diz que atua para evitar isso

Comandante do Exército Brasileiro, general Eduardo Villas Bôas
Marcelo Camargo/Arquivo Agência Brasil
Comandante do Exército Brasileiro, general Eduardo Villas Bôas

O comandante máximo do Exército Brasileiro, general Eduardo Villas Bôas , afirmou que a eleição do ex-capitão Jair Bolsonaro (PSL) como futuro presidente "não é a volta dos militares". Ainda assim, o general reconhece que há "risco sério" de que venha a ocorrer a "politização de quartéis" e disse que pretende evitar que isso ocorra.

Villas Bôas explicou, em entrevista publicada neste domingo pelo jornal Folha de S.Paulo , que está trabalhando para enfatizar a separação entre o Exército e o Planalto, acrescentando que vê Bolsonaro mais como um político do que como um militar (o presidente eleito é deputado há 28 anos e, antes disso, teve 15 anos de carreira militar).

“A imagem de Bolsonaro como militar é uma imagem que vem de fora. Ele saiu do Exército em 1988. Ele é muito mais um político. [...]Ele nunca se envolveu com questões estruturais da defesa do País. Mas aí criou-se essa imagem de que ele é um militar", explicou.

O general avalia que hoje as Forças Armadas estão "muito afastadas" de questões políticas, mas que, ainda assim, existe a possibilidade de "ideias serem personalizadas" e de que "interesses pessoais venham a penetrar" nas entranhas dos quartéis.

"Estamos tratando com muito cuidado essa interpretação de que a eleição dele representa uma volta dos militares ao poder. Absolutamente não é. Alguns militares foram eleitos, outros fazem parte da equipe dele, mas institucionalmente há uma separação. E nós estamos trabalhando com muita ênfase para caracterizar isso, porque queremos evitar que a política entre novamente nos quartéis", completou.

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Comandante máximo do Exército desde 2011, o general nascido no Rio Grande do Sul avalia que os apelos de parte da população por intervenções e a volta dos militares  não é algo que pertence à esquerda ou à direita, mas sim "uma reclamação sobre a questão dos valores".

"As Forças Armadas são consideradas um repositório de valores mais conservadores. Havia essa demanda por parte da população, então é decorrência natural essa interpretação de que há uma volta de militares ao poder", analisou.

O general Villas Bôas tem 67 anos de idade e sofre de uma doença neuromotora degenerativa, que atualmente o obriga a se locomover com apoio de uma cadeira de rodas. Em abril, ele foi protagonista de polêmica ao manifestar "repúdio à impunidade" às vésperas de julgamento de habeas corpus do ex-presidente Lula no Supremo Tribunal Federal (STF). As declarações do militar por meio de sua conta no Twitter foram interpretadas como um gesto de intimidação aos ministros do STF, o que ele voltou a negar.

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"Ali, nós conscientemente trabalhamos sabendo que estávamos no limite. Mas sentimos que a coisa poderia fugir ao nosso controle se eu não me expressasse. [...] Mas a relação custo-benefício foi positiva. Alguns me acusaram... de os militares estarem interferindo numa área que não lhes dizia respeito. Mas aí temos a preocupação com a estabilidade, porque o agravamento da situação depois cai no nosso colo. É melhor prevenir do que remediar", disse Villas Bôas .

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