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Paulo Pinto/Fotos Públicas
Lula durante missa, antes do discurso, no ABC


Depois de dois dias de suspense, calado, mudando de ideia sobre discursar ou não, o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva finalmente falou ao público. Ele fez um discurso inflamado em frente a sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo por 55 minutos.

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No discurso, Lula  começou cumprimentando diversos companheiros e companheiras de partido e de luta, entre eles a ex-presidente da república Dilma Rousseff, a presidente nacional do PT Gleisi Hoffmann, o ex-ministro da educação e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, e os pré-candidatos à presidência pelo PSOL, Guilherme Boulos, e pelo PSTU, Manuela Dávila.

Em relação à Dilma, Lula chegou a declararar que ela é "possivelmente a mais injustiçada das mulheres que um dia ousaram fazer política neste país". Já em relação a Boulos e Dávila, Lula destacou a coragem e o privilégio de fazer parte de uma geração que ainda jovem vai disputar a presidência da república.

Depois disso, o líder do PT fez um retorno ao passado, destacando seu começo na luta sindical e até relembrando a sua filiação ao Sindicato dos Metalúrgicos. Ele chegou a dizer que "quando cheguei aqui esse sindicato era um barraco" e que "aqui foi minha escola. Aqui aprendi sociologia, economia, física, química, e aprendi a fazer muita política."

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Reprodução/Twitter
Lula fez discurso inflamado cercado de outras lideranças do partido como Gleisi Hoffmann e Dilma Rousseff.

Lula criticou imprensa e sistema judiciário

A partir daí, o ex-presidente passou a abordar as questões ligadas a sua condenação. Ele chegou a se dizer " o único ser humano processado por um apartamento que não é meu. Condenado por um apartamento que não é meu. E pensei que o Moro ia resolver, mas ele mentiu dizendo que era meu." Em outro momento, Lula reforçou que todos aqueles que o acusaram e o condenaram pelo casos do triplex no Guarujá mentiram. "O delegado que me investigou e disse que o apartamento era meu, mentiu. O juiz que me condenou dizendo que o apartamento era meu, mentiu. A imprensa que me massacrou dizendo que o apartamento era meu, mentiu."

Lula, então, passou definitivamente ao ataque em seu discurso . Começando pela imprensa, ele citou nominalmente a rede Globo, mais de uma vez, a rede Record, a rede Bandeirantes, e também emissoras de rádios e revistas como a Veja. "Eu tenho mais de 70 horas de Jornal Nacional me massacrando. Eu tenho mais de 70 capas de revista me massacrando. Mas o que eles não sabem é que quanto mais eles me atacam, mais cresce a minha relação com o povo brasileiro. " Ele também afirmou em outro momento que chegou a dizer para Moro que sabia que o juiz não poderia inocentá-lo porque "a Globo não ia deixar".

Mais a frente no discurso, também se referindo à imprensa, o líder petista disse que fica imaginando "o tesão que a [revista] Veja vai ter em me colocar como presidiário na capa.  O tesão que a Globo vai ter de me colocar como presidiário no Jornal Nacional. Eu fico imaginando os orgasmos múltiplos que eles vão ter. "

Lula também atacou a justiça através do procurador Deltan Dallagnol e do juiz Sérgio Moro, mas sobrou até para os ministros do Supremo. "Eu acredito na Justiça. Numa Justiça justa, que vota um processo baseado nos autos do processo, nas informações das acusações, das defesas, na prova concreta. O que eu não posso admitir é um procurador que fez um PowerPoint e foi para a televisão dizer que o PT é uma organização criminosa que nasceu para roubar o Brasil", disse.

Em outro momento, Lula acrescentou: "Esse mesmo procurador disse que o Lula, como principal líder do PT, era culpado. Que não precisava de provas porque tinha convicção que o Lula era culpado", já aos berros ele completou: "Eu quero que a convicção dele fique para ele e para os comparsas dele. Para me condenar, eu quero provas!". Ainda sobre esse tema, o ex-presidente condenado disse: "Certamente um ladrão não estaria exigindo prova, estaria de rabo preso, com a boca fechada, torcendo para que a imprensa não falasse seu nome."

Na sequência, Lula também chegou a criticar ministros do STF que em sua opinião não deveriam dar declaração de como vão votar. " Quem quiser votar com base na opinião pública, largue a toga e vá ser deputado. Escolha um partido político e vá ser candidato", bradou. Na sequência, o petista se referiu de forma mais ampla ao sistema de justiça: "Nenhum deles tem coragem ou dorme com a consciência tranquila, da honestidade, da inocência que eu durmo."

Lula também chegou a comentar que gostaria de fazer um debate com o juiz Sérgio Moro no qual ele desafiaria o magistrado a mostrar uma prova de seu crime. "Eu não tenho medo deles. Eu até já falei que gostaria de fazer um debate com o Moro sobre a denúncia que ele fez contra mim. Eu gostaria que ele me mostrasse alguma coisa de prova", e acrescentou dizendo que não era contra a Lava Jato: " Não pensem que eu sou contra a Lava Jato . Se pegar bandido, tem que pegar bandido mesmo que roubou e prender. Todos nós queremos isso", afirmou reiterando a exigência de provas.

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Ricardo Stuckert
Após o discurso, Lula foi carregado nos ombros em meio à multidão do carro de som, onde discursou, até o prédio do Sindicato dos Metalúrgicos.




Lula valorizou os atos de seu governo

Desse momento em diante, o ex-presidente começou a fazer um paralelo com o período em que foi presidente do Brasil e as mudanças que ele realizou quando estava no cargo máximo da república.

"Há muito tempo, sonhei que era possível governar esse país envolvendo milhões de pessoas pobres na economia, nas universidades, criando milhões de empregos" e completou com uma das frases mais marcantes de todo o discurso: "Esse crime eu cometi. Eu cometia esse crime que eles não querem que nem eu nem ninguém cometa mais. É por conta desse crime que já tem uns dez processos contra mim. E se for por esse crime, de colocar pobre na universidade, negro na universidade, pobre comprar carro, pobre andar de avisão, se esse é o crime que eu cometi, eu vou continuar sendo criminoso nesse país, porque eu vou fazer muito mais! ", afirmou.

Na sequência, Lula mostrou-se indignado e fez um paralelo com a morte de sua esposa, Marisa Letícia, que completaria 68 anos hoje (7) e, por isso, foi motivo de ato ecumênico na frente do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo. "Eu talvez viva o momento de maior indignação que um ser humano vive. Não é fácil o que sofre a minha família, os meus filhos, o que sofreu a Marisa. Essa irresponsabilidade deles antecipou a morte da Marisa ", acusou.

Depois disso, Lula finalmente admitiu que iria se entregar à Polícia Federal e cumprir o mandato de prisão expedido pelo juiz Sério Moro quando ouviu lamentos da multidão. "Vou atender [o mandato de prisão] porque quero fazer a transferência de responsabilidade. Eles acham que tudo o que acontece nesse país acontece por minha causa. Mas não adianta achar que eu vou parar quando eu for preso, porque eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia. Não adianta tentar parar o meu sonho, porque quando eu parar de sonhar, sonharei pela cabeça de vocês. O meu coração baterá pelo coração de vocês, e são milhões de corações", conclamou.

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Mais a frente, ele acrescentou: " Quanto mais dias me deixarem lá [preso], mais Lulas vão nascer neste país. " Ele também disse que iria se entregar "sem abaixar a cabeça" e que iria sair de lá "de peito estufado".

Ainda na mesma linha, o petista passou a incitar a militância: " Eles têm que saber que a morte de um combatente não para a revolução.  Eles têm que saber que nós vamos regular os meios de comunicação para que o povo não seja mais vítima das mentiras que a imprensa conta. Eles têm que saber que o povo vai queimar os pneus que vocês querem queimar, vai fazer as passeatas que vocês querem fazer e as ocupações que vocês querem fazer", disse.

Para encerrar, Lula citou uma frase que, segundo ele, ouviu de uma menina em uma de suas caravanas, mas é de autoria de Che Guevara: " Os poderosos podem matar uma, duas ou cem rosas, mas jamais vão deter a chegada da primavera. E a nossa luta é pela chegada da primavera."

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Francisco Proner Ramos
Lula chegou a ficar completamente cercado pelos militantes depois que desceu do carro de som.

Lula precisou de atendimento médico

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Após isso, o ex-presidente passou mal e precisou ser atendido dentro do prédio do Sindicato dos Metalúrgicos . O carro de som pediu para que médicos se encaminhassem para o atendimento e minutos depois anunciou que  Lula já estava bem. Depois disso, o ex-presidente voltou a aparecer na janela do sindicato, quando acenou e viu a multidão começar a se dissipar lentamente.

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