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Em entrevista ao IG, a vereadora Áurea Carolina (PSOL) comentou o desânimo da população com o cenário nacional e defendeu que "é preciso que mulheres, pessoas negras, jovens e periféricas ocupem a política"

Áurea Carolina (Muitas/PSOL), vereadora mais votada em BH nas eleições de 2016
Beto Staino / Reprodução Facebook
Áurea Carolina (Muitas/PSOL), vereadora mais votada em BH nas eleições de 2016

Foram 17.420 votos, a votação mais expressiva que qualquer aspirante à Câmara Municipal de Belo Horizonte já alcançou – e a aspirante, no caso, era mulher, negra e de “origem popular”, como ela mesma diz.

Sob o lema de que “outra política é possível”, a vereadora Áurea Carolina se elegeu em 2016 pelo PSOL, que recebeu candidatos da movimentação Muitas pela Cidade que Queremos, surgida em 2015 com o propósito de “ocupar as eleições a partir das lutas populares”.

Ao todo, as Muitas/PSOL obtiveram 36.615 votos em BH, o suficiente para eleger, além de Áurea, a vereadora Cida Falabella . De lá pra cá, já são quase dois anos de atuação na política institucional, um lugar que, na avaliação da vereadora, “não foi programado” para dialogar com as “maiorias sociais”: as mulheres, a população negra, a juventude, a comunidade LGBT, os indígenas, quilombolas e moradores das periferias, enumera Áurea.

Ela compõe, junto de outras mulheres recordistas de votos em 2016, a bancada feminista nacional das vereadoras eleitas pelo PSOL. Também faz parte do grupo a vereadora Talíria Petrone , a mais votada em Niterói nas últimas eleições, e, até o fatídico 14 de março, integrava a bancada a vereadora Marielle Franco,  assassinada nas ruas do Rio de Janeiro junto do motorista Anderson Gomes.

Áurea Carolina falou ao IG sobre sua atuação na Câmara e comentou o desânimo das pessoas com os governantes atuais, o que ela relaciona à manutenção de um quadro de sub-representação de parcelas inteiras da população na política institucional.

Como saída para a situação, a vereadora apontou a importância de encorajar essas parcelas a ocuparem espaços na política. Acompanhe, abaixo, os principais trechos da entrevista:

Após a morte da vereadora Marielle Franco (PSOL), notícias te citaram como outro exemplo de mulher negra e defensora de minorias que alcançou posições importantes na política. Quais barreiras uma mulher negra tem de vencer para ocupar espaços na política?

Eu não me considero uma defensora das minorias. Sou uma lutadora pelas maiorias sociais, que somos as mulheres, a população negra, a juventude, as comunidades LGBT, indígenas, quilombolas, as pessoas que vivem nas periferias.

Somos os 99% da população contra o 1% privilegiado que só age em prol de seus próprios interesses. Defender essas causas coletivas é demonstrar a força que podemos ter se compreendermos qual é a dinâmica da desigualdade e como essa minoria efetivamente acaba se transformando em maioria política porque controla o sistema político, controla o sistema econômico, e têm influência sobre a política a partir desses interesses.

Ser uma mulher negra de origem popular na política significa, entre outras coisas, responder com muita frequência o sentido de estar na política sendo quem eu sou. Porque é tão raro, tão inesperado, que causa estranhamento.

É um lugar que não foi programado para nós e funciona o tempo inteiro para nos expulsar de lá. É fundamental que a população compreenda o seu poder para que a democracia seja uma realidade. Não é possível alcançar um sistema democrático sem a presença dessas maiorias sociais nos processos decisórios que afetam as suas vidas.

Como tem sido a sua experiência na política?

Nossa experiência é de enfrentamento, de aprendizados, de persistência no compromisso com essas causas urgentes das maiorias sociais ignoradas, silenciadas nos espaços de poder. Criamos canais de comunicação direta com os cidadãos para pensar algo que contribua para a formação de mais lideranças, mais lutadoras.

Temos exemplos de como isso funciona: os grupos fortalecedores temáticos com os quais dialogamos para pensar determinadas pautas. Um dos mais significativos foi com trabalhadores e trabalhadoras que estão nas ruas, os camelôs e ambulantes.

Com essas pessoas, a gente atuou contra uma política da prefeitura municipal de BH de retirada dos ambulantes do hipercentro, uma política que na nossa avaliação é racista, higienista. Discutimos como difundir informações sobre os direitos deles, e conseguimos elaborar propostas que surgiram a partir deles mesmos, de que houvesse feiras permanentes no espaço público para que eles continuassem exercendo seu trabalho. A política da prefeitura, de retirada forçada desse pessoal das ruas, nesse momento político de crise econômica que estamos atravessando, só agrava o problema social, mas a prefeitura não se dispõe a dialogar efetivamente com essas pessoas.

O que explica que mulheres negras como você e a Marielle Franco, no Rio, tenham obtido votações tão expressivas?

Essas votações expressivas que Marielle, Talíria [em Niterói] e eu, entre outras mulheres, tivemos em algumas cidades do Brasil, diz de um levante dessas lutas e da compreensão de que é necessário que pessoas como nós ocupemos os espaços institucionais. Isso está crescendo no país e não com a velocidade e a intensidade que a gente deseja e que seria necessária, mas é fato que há uma mudança de cenário.

Conheci a Marielle, nós éramos parceiras, integrávamos juntas a bancada feminista do PSOL, que é formada por vereadoras do Brasil inteiro, e nós tínhamos uma afinidade muito grande, uma cumplicidade, uma convivência de muito amor.

Como você percebe a movimentação de manifestantes após o assassinato da vereadora?

Depois do assassinato da Marielle e do Anderson houve uma reação muito importante em varias cidades do Brasil . Muitas pessoas estão comovidas, se sentindo diretamente atingidas pelos tiros que acertaram a Marielle e o Anderson, e se sentem cerceadas nos seus direitos como cidadãs.

Acho que há uma compreensão da gravidado do quadro que nós vivemos no Brasil, de aprofundamento da violência estatal, da questão da violência urbana, do genocídio da população negra e periférica, da matança das mulheres, tudo isso associado a um desmonte das políticas sociais com o golpe que houve contra a democracia.

As pessoas estão cada vez mais inconformadas e a gente não tem como prever os desdobramentos que virão , mas a reação imediata de muitas pessoas irem as ruas manifestar o seu repúdio e a sua indignação com o assassinato da Marielle já é um sinal de que as pessoas estão se movendo.

Como reverter esse quadro de baixa representatividade de parcelas da população na política?

Para reverter o quadro de sub-representação das mulheres, da população negra, de LGBTs, de pessoas pobres e indígenas na política, a gente precisa denunciar como que a minoria representada por esses homens brancos, ricos e privilegiados usurpa o poder para manter o seu controle sobre a sociedade, para terem mais e mais formas de explorar a miséria do povo, de depredar o planeta, de alimentar uma cultura de ódio, do medo.

A gente precisa politizar as nossas vidas, fazer com que as pessoas compreendam a importância da política como um processo de emancipação coletiva, como algo que vale a pena, e denunciar a criminalização da política.

Quando dizem que política é suja, que só tem corrupto, que não adianta participar porque não muda nada, na verdade estão afastando as pessoas desse direito de efetivamente influenciarem o processo que vai depois ter impacto sobre as suas vidas.

Não é possível, numa democracia, algo que a gente nunca realizou plenamente no nosso país, que as pessoas negligenciem a política. A política é uma ferramenta, uma capacidade necessária para transformar toda essa realidade injusta. Acho que o mais importante é a gente fazer o debate público e encorajar as pessoas para ocuparem também os espaços institucionais.

Como você encara a ascensão do pensamento reacionário no Brasil, de ataques, físicos e virtuais, aos defensores dos direitos humanos e lideranças de movimentos sociais?  

O ataque aos defensores de direitos humanos faz parte de uma programação desse estado violento, genocida, racista, que quer nos impedir de atingir a condição de cidadania plena, de pessoas que podem viver as suas potencialidades sem sofrer violência. A desqualificação dos direitos humanos é intencional, para que as pessoas não compreendam a centralidade disso na construção da democracia.

Quanto mais as pessoas acreditarem que direitos humanos é coisa, como dizem, para defender bandidos, mais elas poderão continuar a ser controladas por essas minorias sociais que se transformaram em maioria política, então temos uma tarefa gigantesca de produzir informação crítica, confrontar essas versões macabras sobre a realidade, formar coletivos populares em nossas comunidades, conversar com os jovens, as mulheres.

Raul Jungmann, ministro da Segurança Pública, disse que parte da população “financia o crime organizado” quando compra drogas nas favelas. Como vocês encaram a questão das drogas e o tráfico nas favelas?

Defendemos uma perspectiva de segurança pública cidadã, que não seja pautada na repressão, em mais armas e na militarização, e sim na defesa da cidadania com as comunidades, na mediação de conflitos, na construção, com as pessoas, de saídas para os nossos problemas, para a violência urbana, e isso envolve uma série de questões, entre elas a mudança no modelo de política de drogas.

Essa afirmação de que parte da população financia o crime organizado só serve para despolitizar ainda mais essa discussão. A gente precisa fazer uma reflexão mais séria, mais consequente sobre que está acontecendo no nosso país, na América Latina e em tantas partes do mundo.

O modelo proibicionista da política de drogas só se presta a reprodução do extermínio das populações marginalizadas, tidas como perigosas, matáveis. E não resolve o problema da violência urbana. São anos de uma política que só investe em armas, em mais truculência, e o resultado está se mostrando absolutamente ineficaz. É preciso discutir uma outra perspectiva, pautada no direito à saúde, em políticas para que as pessoas possam ter acesso a informação para construir o seu discernimento sobre a questão das drogas.

Não é possível seguir com essa lógica proibicionista. Os trabalhadores que atuam na ponta do mercado de drogas, esses pequenos trabalhadores precarizados, são os que se tornaram alvo dessa política proibicionista. Política que não atinge os controladores desse mercado internacional. É só ver o caso desse helicóptero [que pertencia ao senador Zezé Perrela (PTB)] lotado de cocaína: o que aconteceu, que repercussão aquilo teve?

Como engajar as pessoas na política frente a tantas notícias desanimadoras envolvendo os atuais governantes?

O ambiente político atual cria essa desesperança, e é proposital que as pessoas fiquem cada vez mais desanimadas, que sintam que não tem muita solução, e a gente precisa rebater isso com esperança, com um encantamento pela política.

A gente precisa reconhecer a política como o melhor que a gente pode fazer coletivamente se tivermos de fato uma percepção da outra pessoa como tão digna e tão plena de direitos, como tão capaz como eu mesmo ou as pessoas que são queridas da minha convivência. A gente precisa se perceber como uma coletividade maior, e que as nossas diferenças, e eventuais divergências, não devem ser motivos pra gente não suportar a existência entre nós.

É exaustivo repetir sempre isso, é remar contra a corrente o tempo inteiro, mas a gente precisa demonstrar para as pessoas que todas temos muito potencial e que o sistema político pode ser sim transformado a partir da nossa presença.

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