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Ex-procurador-geral da República também defendeu validade de provas da JBS; "Não estou criminalizando a política, estou criminalizando bandido"

Rodrigo Janot minimizou trocas na equipe da Lava Jato, mas disse ter estranhado modo como Dodge conduziu situação
Marcelo Camargo/Agência Brasil - 25.7.17
Rodrigo Janot minimizou trocas na equipe da Lava Jato, mas disse ter estranhado modo como Dodge conduziu situação

O ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot chamou o empresário Joesley Batista de "bandido" e garantiu não ter "criminalizado a política" durante seu mandato como chefe do Ministério Público Federal. As declarações publicadas nesta quarta-feira (20) pelo jornal Correio Braziliense  foram dadas na primeira entrevista concedida por Janot após ele entregar o cargo a Raquel Dodge, indicada pelo presidente Michel Temer que assumiu a PGR na segunda-feira (18) .

Rodrigo Janot  defendeu a validade das provas apresentadas pelos delatores do grupo J&F, assunto que será julgado nesta tarde pelo Supremo Tribunal Federal , mas reconheceu que existiu um "gosto amargo" provocado pela descoberta de que o empresário Joesley Batista e o ex-executivo da JBS Ricardo Saud esconderam fatos da Procuradoria.

"A gente tem que deixar muito claro: a colaboração premiada é um instituto novo para a gente, já aprendemos muito. Quando a gente faz um acordo desse, é de natureza penal, a gente está negociando com bandido, bandi-dê-ó-dó. O cara, porque é colaborador da Justiça, não deixa de ser bandido. As coisas têm que ser muito claras", afirmou o ex-chefe do MPF.

Apesar da conduta dos executivos, Janot disse que a omissão de informações "não contamina" a totalidade dos fatos narrados pelos delatores. "Eles esconderam fatos. Trouxeram 'A' mas não nos trouxeram 'B'. Porque não trouxeram 'B', está contaminado todo o acordo. Só que o fato de ele não trazer o 'B' não influencia nem tangencia o 'A'", disse Janot.

Críticas de Temer e nova equipe de Dodge

O ex-procurador-geral também rebateu as críticas e questionamentos feitos pelo presidente Michel Temer , denunciado duas vezes por Janot – a última delas na última quinta-feira (14), por crimes de organização criminosa e obstrução à Justiça .

"Quando o fato é chapado, quando o fato é mala voando, são R$ 51 milhões dentro de apartamento, gente carregando mala de dinheiro na rua de São Paulo, gravação dizendo 'tem que manter isso, viu?'... Há uma dificuldade natural para elaborar defesa técnica nesses questionamentos jurídicos. E uma das estratégias de defesa é tentar desconstruir a figura do acusador", disse Janot ao jornal de Brasília.

Questionado sobre as alterações na composição da força-tarefa da PGR na Lava Jato – anunciadas nessa terça-feira (19) por Raquel Dodge  –, Janot minimizou o fato, mas demonstrou surpresa pelo modo como a nova chefe da PGR conduziu a situação.

"Em tese, todos estão preparados para esse tipo de trabalho. É claro que as pessoas têm que trabalhar com quem têm afinidade. Isso é normal. Eu me espantei porque havia ofício formal, com convite para que toda a equipe da Lava-Jato continuasse. Existia um ato formal dela. Houve uma conversa com o pessoal da equipe, em que ela disse novamente que todos estavam convidados. Depois, ela começou a desconvidar."

O ex-procurador-geral disse ainda acreditar ser difícil a Câmara dos Deputados aprovar a admissão da nova denúncia apresentada por ele contra Temer – assim como ocorreu no início do mês passado com a primeira denúncia. "Mas a solução política não me interessa", garantiu Rodrigo Janot. "Primeiro eu era petista, indicado pela Dilma. Quando viram o meu radar, virei perseguidor de político. Não estou criminalizando a política, estou criminalizando bandido."

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