A diplomacia norte-americana inaugurou, sob Donald Trump, uma política de anfitrião que autoriza o assassinato dos líderes supremos de seus visitantes.
Sob bombardeios ordenados pelo chefe da Casa Branca há quase 20 dias, o Irã era um dos países que pretendia disputar a Copa do Mundo de futebol masculino -- e que terá, entre as sedes, a nação inimiga (além de México e Canadá). Sim, pretendia. Não pretende mais.
O ministro do esporte do Irã, Ahmad Donyamali, declarou nesta quarta-feira (11) que o país persa não disputará o Mundial.
A decisão parece incontornável, a se fiar pelo tom usado por Donyamali. “Desde que esse governo corrupto assassinou o nosso líder, não temos condições de participar da Copa do Mundo”, disse ele, em referência ao assassinato do aiatolá Ali Khamenei e parte de sua família em um bombardeio.
Quem esperava outra coisa passou o último ano e meio dormindo. Entre as seleções classificadas para a Copa, o que não falta são representantes de países alvejados pelo anfitrião da festa, por bombas tarifárias, por perseguição interna a conterrâneos ou por mísseis Tomahawk.
A Fifa passará os próximos dias fingindo que o único problema até junho é substituir o desfalque iraniano, como se estivesse diante de um caso de leão.
A verdade é que não há a menor condição de esse Mundial acontecer.
Em 1936, quando a Alemanha de Adolf Hitler recebeu os Jogos Olímpicos de Berlim, muitos fãs de esporte ainda não avistavam o abismo para onde o fuhrer estava empurrando o planeta enquanto usava o mega evento como vitrine de seus ideais, entre os quais o da supremacia racial.
(Mentira, muita gente avistava, sim, e não esperou a libertação dos judeus dos campos de concentração, nove anos depois, para emitir gritos de alerta. Bastava ler o que o líder nazista tinha deixado como rastro de pensamento no relato autobiográfico “Minha Luta”).
Na época o governo nazista investiu pesado em infraestrutura, cerimônias grandiosas e numa organização considerada exemplar para demonstrar coesão, eficiência e poder. Vendeu modernidade enquanto reprimia, perseguia e esmagava parte da própria população, enquadradas em políticas raciais discriminatórias que em breve descambariam para o extermínio puro.
Os Jogos resultaram em ao menos um momento épico, quando Jesse Owens, um velocista negro norte-americano, conquistou quatro medalhas de ouro (nos 100m, 200m, 4x100m de revezamento e salto em distância) e desmontou, diante do mundo, a narrativa de superioridade racial do anfitrião.
Dessa vez o mundo não precisa antever o abismo. A humanidade já dança nesta beirada há pelo menos um ano, quando Trump se autointitulou presidente do universo, como sonhou um dia o chefe de Estado nazista, e decidiu agir como tem agido, com ameaças de anexação da Groenlândia e do Canadá, sequestro de Nicolas Maduro na Venezuela e assassinatos em massa em países contra os quais ou declarou ou subsidiou a guerra.
Ainda assim a Fifa fará de tudo para que o tirano da vez esteja de pé em 19 de julho para entregar a taça aos campeões do mundo que o dono da festa quer destruir.
A melhor resposta que a comunidade esportiva poderia dar é seguir o exemplo do Irã e declarar que não há a menor condição de disputar uma partida sequer em um campo encharcado de sangue e pólvora.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG