O PM Daniel Glendmann foi preso após torturar e manter a mulher em cárcere privado por duas semanas em Duque de Caxias
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O PM Daniel Glendmann foi preso após torturar e manter a mulher em cárcere privado por duas semanas em Duque de Caxias

Preso acusado de dopar, torturar e manter a companheira em cárcere privado , no Parque Pauliceia, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, por duas semanas, o sargento da PM
Daniel Deglmann, lotado no 16º BPM (Olaria), tentou em 2013 registrar um falso boletim de ocorrência, na 59ª DP (Duque de Caxias), por estupro de vulnerável contra o padastro da
vítima que ele quase matou a pancadas. À época, a mulher — que era menor de idade — havia voltado para a casa da mãe e do padastro porque havia sido espancada por Daniel.

Naquele ano, ao chegar na delegacia, o PM disse aos investigadores que o padastro da companheira tinha praticado o crime. Durante os depoimentos, um dos investigadores notou que o policial estava tentando registrar o um falso boletim de ocorrência. Ao informar que a vítima iria fazer um exame de corpo de delito, o sargento desistiu, segundo conta familiares da companheira.

"Ele tentou criar essa história louca porque ele não queria que a minha filha vivesse lá em casa. Ele insistiu que o policial abrisse um inquérito contra o meu marido. Ele obrigou a ela (a vítima) a dizer que o crime tinha acontecido. Eu fui até o Conselho Tutelar contra ele", afirma a mãe da estudante ao GLOBO , que por temer represálias prefere não se identificar.

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No mesmo ano, o homem invadiu a casa dos pais da mulher armado e forçou a mulher a voltar para a residência onde eles moravam. A estudante e o PM se conheceram quando ela tinha
apenas 16 anos e ele 36. Ambos se relacionaram pela primeira vez em uma festa que estavam.

"Foi lindo no primeiro ano. Ele era muito carinhoso e atencioso. No entanto, a partir do segundo ano de relacionamento ele mudou, se transformou num agressor. As brigas começaram com tapas e empurrões. Em seguida, ele passou a me esmurrar toda vez", lembra a jovem. Segundo ela, em 2013 as agressões se intensificaram.

No começo deste ano, após ele sair para trabalhar, ela fugiu de casa e foi morar no Espírito Santo. No entanto, em agosto, ao voltar para Duque de Caxias, ele teria a pressionado para voltar ao relacionamento e prometeu mudar.

"No dia 1º de agosto ele me chamou para conversar. Fomos até o Caxias Shopping e ele prometeu que iria ser diferente. Conversamos e eu disse que estava com cede. Então, ele me
deu uma água que tinha no carro. Após isso, dormi eu acordei na casa dele. Eu perguntei o que eu estava fazendo ali e ele me disse que eu tinha pedido para ir", lembra a estudante que acredita ter sido dopada pela primeira vez ali.

Ainda segundo a mulher, após uma insistência, ela decidiu que voltaria para ele.Como a reportagem mostrou nesta terça-feira, por duas semanas a mulher viveu os piores momento de sua vida. O GLOBO não conseguiu contato com a defesa de Daniel. Procurada, a Polícia Militar não comentou o caso.

Na semana em que ficou dopada, a vítima diz se lembrar que foi levada ao 16º BPM por Daniel. Lá, ela contou ao GLOBO que ficou sentada perto da sala de um oficial. Em um determinado momento, a mulher disse que ele PM saiu de dentro do local e teria dito que "iria ficar tudo bem".

Segundo a Polícia Civil, ao menos quatro agentes do 16º BPM estão envolvidos em uma tentativa de coação as testemunhas do caso. Eles teriam ido a casa de uma vizinha da vítima e
a obrigado a retirar a queixa. A testemunha, com medo, fugiu do estado.

Nos dias das agressões, Daniel obrigou que a vítima fizesse uma tatuagem na costela com o seu nome. Além disso, ele teria pago com dinheiro da própria mulher três outras tatuagens que ela seria obrigada a registrar no corpo. A Polícia Civil descobriu que, mesmo dentro da Unidade Prisional da Polícia Militar, em Niterói, o homem ainda continua usando as redes sociais da mulher. Os investigadores buscam pelo celular da vítima, que sumiu.

Em 2019, a Deam-Caxias foi a que mais teve registros de feminicídio no estado. Até setembro a Deam já havia registrado 3.082 casos, uma média de 11,3 por dia. A delegada Fernanda Fernandes acredita que até o final do ano 5.000 casos deverão ser registrados no local. Esse número é superior ao do ano passado, quando a unidade registrou pouco mais de 3.800 ocorrências.

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Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), em 2018, 41.344 mulheres registraram terem sido vítimas de lesão corporal no estado por companheiros. A cada 24 horas, quatro mulheres são agredidas e ameaçadas por homens, e doze são estupradas. Ainda segundo o ISP, 56% dos crimes contra o gênero feminino são cometidos por seus companheiros ou ex-companheiros.

"Um dos motivos desse alto índice de registros é que as vítimas estão sendo encorajadas a denunciar os agressores. Sabemos que a violência doméstica é muito complicado. As
pessoas acham que as mulheres são bipolares ou malucas, e não são. A tese da defesa do acusado é sempre desqualificar a vítima. Já que no primeiro momento ela está muito abalada
e confunde várias informações. Ouvimos a vítima várias vezes quando ela está mais calma e pode lembrar de todos os detalhes", conta Fernanda, que aponta também o aumento do
número de vítimas mulheres menor de idade.

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