Cúpula de Runit, no Atol de Enewetak, foi construída nos anos 1970 sobre área de testes nucleares dos EUA
Reprodução/The Marshall Islands Program
Cúpula de Runit, no Atol de Enewetak, foi construída nos anos 1970 sobre área de testes nucleares dos EUA

O domo de concreto conhecido como Cúpula de Runit, construído para conter resíduos nucleares nas Ilhas Marshall, apresenta rachaduras e sinais de deterioração cerca de 50 anos após sua construção, segundo estudos recentes.

A estrutura fica no Atol de Enewetak e foi criada após testes nucleares realizados entre 1946 e 1958 pelos Estados Unidos

Relatos de especialistas indicam que a cobertura nunca foi projetada para resistir aos impactos das mudanças climáticas e não é totalmente vedada, permitindo a entrada e saída de água com as marés.

Especialistas alertam que a elevação do nível do mar e o aumento da intensidade de tempestades podem comprometer ainda mais o local, permitindo que material contaminado se espalhe pela lagoa próxima, usada por comunidades que vivem na região.

Origem da estrutura

A Cúpula de Runit foi construída no fim da década de 1970, durante uma operação de limpeza nuclear conduzida pelos Estados Unidos. A estrutura cobre uma cratera formada por uma explosão atômica, onde foram depositadas mais de 120 mil toneladas de solo e detritos contaminados recolhidos de diferentes pontos do atol.

A cratera tem cerca de 10 metros de profundidade e foi criada após o teste nuclear conhecido como “ Cactus ”, que lançou uma nuvem de cogumelo a cerca de seis quilômetros de altura e destruiu parte da ilha de Runit.

Segundo a ABC, o ex-militar Robert Celestial participou da operação sem saber da origem nuclear do local. Ele relatou que recebeu ordens para transportar terra “ contaminada ” até a ilha de Runit, acreditando se tratar de resíduos da Segunda Guerra Mundial . “ Nos disseram que era lixo do pós-guerra ”, afirmou.

Estávamos em uma pequena ilha no Pacífico com cerca de 500 homens, era como Alcatraz. Você não podia escapar ”, disse. Anos depois, ele descobriu que a região havia sido alvo de 43 detonações nucleares .

Ao todo, 67 testes foram realizados nos atóis de Enewetak e Bikini, o que levou à remoção de mais de 300 moradores locais para viabilizar o programa nuclear iniciado há cerca de 80 anos. Entre essas explosões, algumas tiveram alto poder destrutivo e contribuíram para a contaminação generalizada da região.

Atol de Enewetak
Reprodução/NASA/USGS
Atol de Enewetak


Problemas estruturais 

Estudos recentes identificaram rachaduras na cobertura de concreto do domo, além da infiltração de água subterrânea que entra e sai com as marés. Esse movimento pode carregar resíduos contaminados para a lagoa ao redor. 

Relatórios também apontam que a estrutura não é impermeável, o que aumenta o risco de vazamento de material radioativo.

A pesquisadora Ivana Nikolic-Hughes, que visitou o local em 2018, afirmou que níveis elevados de radiação foram encontrados fora da estrutura. “ Dado que o nível do mar está subindo e há sinais de tempestades mais intensas, nos preocupamos que a integridade do domo possa estar em risco ”, disse.

Runit fica a cerca de 20 milhas (aproximadamentede 32 quilômetros) de onde as pessoas vivem e elas usam a lagoa, então as implicações podem ser devastadoras ”, afirmou a pesquisadora.

Apesar disso, o Departamento de Energia dos Estados Unidos afirmou que o domo não corre risco imediato de colapso e que a quantidade de material radioativo já presente na lagoa é significativa, tornando o impacto adicional relativamente pequeno.

O órgão também declarou que as rachaduras são compatíveis com o envelhecimento natural do concreto.

Cúpula de Runit é uma estrutura de contenção de lixo nuclear construída na cratera Cactus
Reprodução/The Marshall Islands Program
Cúpula de Runit é uma estrutura de contenção de lixo nuclear construída na cratera Cactus


Exposição à radiação

Robert Celestial relatou que desenvolveu problemas de saúde após retornar da missão, incluindo feridas na pele, problemas ósseos, artrite e complicações nos rins e no fígado, segundo informou a ABC. “ Estava por todo o meu corpo e sangrava” , disse, ao descrever lesões que surgiram após a exposição.  “Meu uniforme ficava cheio de sangue ”, afirmou.

Celestial foi afastado das Forças Armadas por motivos médicos após sete anos de serviço. Ainda hoje, faz tratamentos regulares. Ele também relatou osteoporose e segue recebendo injeções para tratar os sintomas.

Segundo a Atomic Heritage Foundation, muitos veteranos que participaram da operação relataram doenças como câncer e fragilidade óssea. Apenas em 2023 esses trabalhadores foram oficialmente reconhecidos como “ veteranos atômicos ”, o que permitiu acesso a benefícios de saúde. 

Segundo Celestial, dos cerca de 4 mil militares enviados para a região nas décadas de 1970 e 1980, apenas algumas centenas ainda estariam vivos. “ Muitos morreram de câncer, mas eu sou um dos sortudos porque ainda não tenho ”, disse.


Impasse político

O governo das Ilhas Marshall afirma não ter capacidade técnica nem recursos financeiros para lidar com o problema. Autoridades locais também apontam que o país tem pouca margem de ação para intervir na estrutura.

Um acordo firmado em 1986, que garantiu a independência do país, também definiu que as reivindicações relacionadas aos testes nucleares estavam encerradas, deixando a responsabilidade do domo majoritariamente com o próprio país.

Autoridades locais afirmam que não tinham acesso completo às informações quando o acordo foi assinado. Para o ex-secretário de Saúde das Ilhas Marshall, Jack Niedenthal, a estrutura simboliza um erro histórico. “ Fora cobrir com cimento e fazer estudos, eles realmente não fizeram muito para reforçar ou consertar ”, disse.

Com o aumento do nível do mar, a preocupação cresce. Em algumas áreas, a terra fica apenas poucos metros acima da maré alta, o que pode agravar os riscos ao longo do tempo. 

Especialistas afirmam que nenhuma estrutura de concreto é capaz de conter material radioativo por períodos equivalentes à vida útil de elementos como o plutônio-239, que pode permanecer perigoso por mais de 24 mil anos .

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