Em 2022, um enfermeiro italiano ganhou destaque silencioso nos bastidores do Vaticano . Massimiliano Strappetti, até então coordenador dos serviços de saúde da Santa Sé , foi nomeado “assistente médico pessoal” do Papa Francisco, que morreu na última segunda-feira (21). Ele e outros médicos, que atuam como assistentes, faziam parte do gupo de profissionais responsáveis pelos cuidados com a saúde do líder da Igreja Católica.
A nomeação de Massimiliano não foi apenas um reconhecimento. Era sinal de que a saúde do pontífice exigia atenção contínua.
Aos 86 anos à época, Francisco já apresentava um histórico de internações por bronquite , problemas respiratórios e limitação de mobilidade . O enfermeiro passou a acompanhá-lo de forma permanente.
Sem hospital próprio
A saúde de um Papa é assunto de Estado . Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, a Cidade do Vaticano — centro do catolicismo e lar de cerca de 800 pessoas — não possui hospital próprio.
O atendimento de maior complexidade é feito do lado de fora dos muros, principalmente no Hospital Gemelli, em Roma, que abriga uma ala exclusiva para pontífices. Foi ali que Francisco foi hospitalizado em 2025.
A estrutura interna da Santa Sé é enxuta. Há um pequeno serviço médico que atende moradores e funcionários com consultas, exames básicos e emergências.
O time inclui clínicos gerais, enfermeiros e profissionais de apoio. A equipe também é acionada para acompanhar o Papa em eventos públicos, audiências e viagens internacionais.
Equipe do Papa
No cotidiano, o cuidado com a saúde do pontífice é liderado por seu médico pessoal, apoiado por Strappetti e por médicos de referência em hospitais externos.
Durante o pontificado de Francisco, o geriatra do Gemelli atuava como referência clínica. Em casos de internação, forma-se uma equipe maior, composta por especialistas e cirurgiões de confiança da Santa Sé.
Esse modelo não é novidade. João Paulo II, que enfrentou Parkinson e foi baleado em 1981, também teve a saúde monitorada por equipes do Gemelli, hospital que ganhou o apelido informal de “hospital do Papa”.
A ala reservada aos pontífices, no décimo andar, tem quartos privativos, sala de estar, capela e equipamentos de alta complexidade. Em emergências, ambulâncias com UTI móvel fazem a transferência diretamente até o hospital.
Para os demais moradores do Vaticano — como cardeais, diplomatas, guardas suíços e funcionários civis — o atendimento segue a mesma lógica: primeiros cuidados são feitos internamente, e encaminhamentos hospitalares são feitos para unidades em Roma .
Medicamentos são adquiridos na farmácia vaticana, próxima à Porta Sant’Anna, que funciona com prescrição e também faz entregas para outras regiões da Itália.
Assistência aos mais necessitados
Embora os serviços internos atendam à demanda local, o Vaticano mantém uma política de cuidado voltada também aos mais vulneráveis.
Desde 2016, funciona sob a colunata da Praça São Pedro o Ambulatório “Mãe da Misericórdia”, espaço voltado ao atendimento gratuito de pessoas em situação de rua e imigrantes.
A unidade oferece consultas em especialidades como cardiologia, oftalmologia e ortopedia, com ajuda de médicos voluntários e estrutura da Esmolaria Apostólica.
Saúde dos papas e a opinião pública
O hospital Bambino Gesù, outro braço da rede vaticana, é voltado para o público infantil e não está localizado dentro do território do Vaticano. Fundado no século 19 e administrado pela Santa Sé, o hospital atende famílias de baixa renda e é referência em pediatria na Itália.
Durante a pandemia de COVID-19, médicos do serviço de saúde da Santa Sé ganharam visibilidade ao acompanhar eventos religiosos adaptados, como a Via Crucis de 2020, realizada com restrições. Foi mais uma mostra de como a presença médica ao lado do Papa é discreta, mas constante.
Ao longo da história recente, a saúde dos pontífices se tornou tema cada vez mais público. Se em décadas anteriores as internações eram mantidas sob sigilo, hoje há boletins regulares e presença de médicos em eventos públicos.
A nomeação de um enfermeiro como braço direito na saúde do Papa, como foi o caso de Strappetti, reforça essa mudança de postura.
O número de médicos diretamente envolvidos com o Papa não é fixo, mas varia conforme a condição de saúde do pontífice e a agenda oficial.
O certo é que, apesar do simbolismo, o Vaticano mantém uma estrutura modesta — e, quando necessário, cruza os muros e recorre à medicina italiana para cuidar da saúde de seu líder máximo.