Caminhão com 46 corpos dentro foi abandonado em estrada do Texas
Reprodução/Twitter - 28.06.2022
Caminhão com 46 corpos dentro foi abandonado em estrada do Texas

A morte de 51 pessoas sufocadas em um caminhão na cidade de San Antonio, no Texas , é retrato de um problema maior na fronteira Sul dos Estados Unidos, onde o número de imigrantes sem documentos detidos bate recordes consecutivos. A questão gera um problema político para o pressionado presidente Joe Biden, cujas tentativas de se livrar dos resquícios da controvertida política imigratória do ex-presidente Donald Trump são barradas pela Justiça.

Até o momento, três pessoas foram detidas por suposto envolvimento com o incidente no Texas, classificado pela Casa Branca como “absolutamente horrível” — não está claro se o motorista, buscado em linhas de trem e ferro-velhos da região, está entre eles. O caso é investigado pelo Departamento de Segurança Interna.

Outras 16 pessoas encontradas no veículo e nos seus arredores, incluindo quatro crianças, foram levadas para hospitais da região com sintomas de insolação e desidratação. De acordo com o chefe dos Bombeiros da cidade, Charles Hood, seus corpos estavam “quentes ao toque”. Ao menos três pessoas internadas não resistiram.,

O número de vítimas é alto até mesmo para incidentes envolvendo o tráfico de pessoas. Recorrentes ao longo dos anos, eles ganharam força diante das restrições draconianas para ingressar no país e a demora no processamento dos casos pendentes. No centro do problema está o chamado Título 42, parte do Código Sanitário americano que permite ao governo proibir a entrada nos EUA quando há "um sério perigo de uma nova doença ser introduzida" no país.

Posta em vigor por Trump em março de 2020, no início da pandemia da Covid-19, ela permite a expulsão rápida da maior parte daqueles que cruzam a fronteira, incluindo solicitantes de asilo, enviando-os de volta para o México ou para seus países de origem. Desde que Biden chegou ao Salão Oval, em 21 de janeiro de 2021, mais de um milhão de pessoas já foram expulsas sob essa justificativa.

Ainda assim, o fato de sua aplicação ser desigual, já que o governo ordenou que não seja mais aplicada a famílias e menores desacompanhados, gera esperança e faz com que os imigrantes repitam o trajeto múltiplas vezes. De acordo com dados oficiais, cerca de três em cada dez adultos que tentam cruzar a fronteira já o fizeram pelo menos uma vez. Alguns estão em sua décima tentativa.

Isso explica porque um número crescente de imigrantes recorre a traficantes humanos e coiotes, a quem pagam dezenas de milhares de dólares. Justifica também os recordes de apreensões na fronteira com o México: entre setembro de 2020 e setembro de 2021, o ano fiscal americano, mais de 1,7 milhão de imigrantes foram detidos pelas autoridades americanas, o maior número histórico.

Até maio deste ano, faltando quatro meses para acabar o ano fiscal de 2022, as detenções já passavam de 1,5 milhão, segundo dados do Departamento de Alfândega e Proteção de Fronteira (CBP, na sigla em inglês). Apenas no mês passado, foram mais de 239 mil pessoas detidas.

Nacionalidades

Segundo o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, 22 dos mortos na segunda seriam mexicanos, sete guatemaltecos, dois hondurenhos e 19 com nacionalidades ainda desconhecidas, listou o mandatário. Ele classificou o incidente — um dos piores do tipo na História americana — como uma “desgraça tremenda”, afirmando que seu governo realizará as investigações necessárias e ajudará no traslado dos corpos.

"Tais fatos lamentavelmente (...) têm a ver com a situação de pobreza, de desespero de pessoas da América Central, de mexicanos", afirmou López Obrador, afirmando que o assunto será pautado durante seu encontro com Biden, no dia 12 de julho.

As nacionalidades listadas por Obrador não são uma coincidência: os mexicanos são historicamente o grupo que tenta cruzar a fronteira para o país vizinho em maior volume. No ano fiscal de 2021, foram mais de 655,5 mil encontros na fronteira. Neste ano, já foram mais de 560,5 mil, segundo dados do CBP. Trata-se de um dilema para Washington, que depende cada vez mais do governo de López Obrador para bloquear o acesso de caravanas ao território americano.

Essas caravanas vêm geralmente dos países da América Central e, em particular, de seu Triângulo Norte, que lida com aguda miséria, acentuada pela pandemia e por eventos climáticos extremos, além da violência. No último ano fiscal, mais de 700 mil guatemaltecos, hondurenhos e salvadorenhos tentaram fazer a travessia na fronteira Sul dos EUA — neste ano, o número já passa de 360 mil.

A Chancelaria da Guatemala lamentou as mortes e enviou representantes para os hospitais para ajudar a determinar suas identidades. O governo de Honduras, por sua vez, afirmou que está em vias de identificar os corpos e, se for confirmado que são seus cidadãos, a repatriação será coordenada com os parentes das vítimas.

Empecilhos

Durante a campanha presidencial de 2020, Biden prometia um sistema de imigração menos draconiano que o de seu antecessor, tendo como uma das plataformas de sua campanha a reversão das políticas de Trump que, por exemplo, chegaram a separar famílias com crianças.

Após chegar ao poder, o democrata interrompeu a construção do muro com o México e anunciou uma suspensão temporária da maior parte das deportações. Na Cúpula das Américas, que sediou na primeira quinzena do mês, apresentou uma declaração com compromissos regionais para conter a imigração irregular, destacando ser um dos principais temas de sua política.

Internamente, contudo, os obstáculos são grandes. A Casa Branca tentou suspender o Título 42, que especialistas afirmam não ter mais qualquer embasamento científico agora que há vacinas amplamente disponíveis, mas foi barrado pela Justiça. Quando a regra deixar de valer, o Departamento de Segurança Interna prevê que o número de imigrantes que tentam cruzar a fronteira chegue a 18 mil por dia.

O democrata também tentou pôr fim à medida conhecida como “Fiquem no México”, que obriga solicitantes de asilo de um terceiro país que chegam irregularmente pela fronteira Sul a esperarem o processamento de seus pedidos no México. Estados controlados pelo Partido Republicano, contudo, levaram a decisão da Casa Branca à Justiça e agora esperam um veredicto da Suprema Corte.

O Congresso, por sua vez, não avança na proposta de reforma migratória mesmo com maioria democrata em suas duas Casas. A margem no Senado é demasiadamente pequena e o projeto demandaria o apoio de democratas moderados que também bloqueiam outros planos do presidente, como suas propostas de reformas eleitorais e seus planos para a transição verde americana.

A situação não deve melhorar após as eleições legislativas de novembro, em que os republicanos são cotados para recuperar a maioria em ambas as casas. Governadores do Partido Republicano que comandam os estados fronteiriços, por sua vez, recorrem a medidas similares às de Trump: o texano Greg Abbott, por exemplo, pôs a culpa do incidente de segunda na “política de fronteira aberta” de Biden.

Onda de calor

O caminhão foi encontrado abandonado em uma estrada remota da cidade texana, perto da rodovia I-35, que cruza os EUA de Norte a Sul, da fronteira com o México até a fronteira com o Canadá. Segundo o jornal Texas Tribune, várias das vítimas tiveram seus corpos salpicados com tempero de carne, tática para tentar disfarçar o cheiro das pessoas transportadas irregularmente. Também de acordo com o veículo, parece que as vítimas tentaram pular do veículo ao longo do caminho, porque corpos sem vida foram encontrados em um perímetro de quarteirões.

A causa das mortes ainda é desconhecida, mas é provável que a onda de calor no Texas tenha ajudado — na segunda-feira, os termômetros em San Antonio chegaram a marcar 39,5 ºC, e este é o mês de junho mais quente já registrado na cidade. Apesar do caminhão ser supostamente refrigerado, não havia unidade de ar condicionado visível na unidade, segundo Hood, ou indício de que havia água para quem estava lá dentro.

O sul do Texas é um ponto de travessia notório para quem deseja entrar irregularmente nos EUA: os grupos viajam em veículos através dos postos de controle até San Antonio, a cidade mais próxima, de onde se dispersam para outros locais nos EUA. A passagem fronteiriça mais próxima fica a cerca de 225 km dali.

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*(com informações de agências internacionais)

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