Mikhail Khodaryonok, um coronel aposentado, no programa
Reprodução/O Globo 17.5.2022
Mikhail Khodaryonok, um coronel aposentado, no programa "60 Minutos" no Rossiya-1

Um analista militar russo desrespeitou a abordagem propagandística oficial e deixou uma mensagem brutalmente franca para os telespectadores da televisão estatal russa: segundo ele, a situação na guerra na Ucrânia deve piorar muito para a Rússia, que enfrenta um país altamente mobilizado e apoiado pelos Estados Unidos, enquanto a Rússia está quase totalmente isolada.

Desde que o presidente Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia em 24 de fevereiro, a mídia estatal russa – e especialmente a televisão estatal – tem apoiado a posição do Kremlin, por vezes com uma cobertura muito agressiva contra a Ucrânia e seus aliados ocidentais. Poucas vozes dissidentes tiveram tempo para exprimir suas opiniões.

Isso não se repetiu na noite de segunda-feira, quando um conhecido analista militar fez uma avaliação contundente ao principal canal de televisão estatal da Rússia sobre o que Putin classifica como uma "operação militar especial".

"Você não deve engolir sedativos sob forma de informação", disse Mikhail Khodaryonok, um coronel aposentado, ao programa "60 Minutos" no Rossiya-1, apresentado por Olga Skabeyeva, uma das jornalistas de posições mais pró-Kremlin da televisão. "A situação, francamente falando, vai piorar para nós."

Ele disse que a Ucrânia poderia mobilizar um milhão de soldados.

"O desejo de defender a pátria realmente existe na Ucrânia e eles pretendem lutar até o fim", disse Khodaryonok antes de ser interrompido por Skabeyeva.

Khodaryonok, colunista militar do jornal Gazeta.ru e formado em uma das academias militares de elite da Rússia, alertou antes da invasão que tal medida não seria do interesse nacional da Rússia.

As maiores consequências estratégicas da invasão da Rússia até agora foram a unidade dos aliados europeus dos Estados Unidos com Washington e as propostas da Suécia e da Finlândia para se juntarem à aliança militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) liderada pelos EUA. No campo de batalha, a Rússia acumula severos reveses.

Khodaryonok disse que a Rússia precisava ver a realidade.

"O principal em nossa área é ter um senso de realismo político-militar: se você for além disso, a realidade da história o atingirá com tanta força que você não saberá o que o atingiu" disse ele. "Não aponte foguetes na direção da Finlândia pelo amor de Deus… Isso só parece muito engraçado."

A Rússia, disse ele, estava isolada.

"A principal deficiência de nossa posição político-militar é que estamos em plena solidão geopolítica. E, embora não queiramos admitir, praticamente o mundo inteiro está contra nós. Precisamos sair dessa situação."

A invasão da Ucrânia pela Rússia matou milhares de pessoas, deslocou outros milhões e aumentou o medo do confronto mais sério entre a Rússia e os Estados Unidos desde a crise dos mísseis cubanos de 1962.

Khodaryonok e Skabeyeva não foram encontrados para comentar.

A guerra também mostrou os limites pós-soviéticos do poder militar, de inteligência e econômico da Rússia. Apesar dos esforços de Putin para reforçar suas Forças Armadas, os militares russos se saíram mal em muitas batalhas na Ucrânia, com problemas de logística, de treinamento e de moral.

O cerco a Kiev, principal objetivo do início da ofensiva, foi abandonado, e a Rússia voltou seu foco para tentar estabelecer o controle sobre a região de Donbass, no Leste da Ucrânia. O Ocidente forneceu bilhões de dólares em armas às forças ucranianas.

As perdas não são divulgadas publicamente, mas a Ucrânia diz que as perdas russas já são piores do que os 15 mil soviéticos mortos na guerra soviético-afegã de 1979-1989.

*Com informações de agências internacionais.

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