Papa Francisco em visita ao Iraque
Reprodução/Vatican News
Papa Francisco em visita ao Iraque

Na primeira viagem de um chefe da Igreja Católica ao Iraque, o Papa Francisco foi neste sábado (6) à cidade sagrada xiita de Najaf, ao sul de Bagdá, para se encontrar com o grande aiatolá Ali al-Sistani. Ele também visitou a região de Ur, apontada pelo Antigo Testamento como o local de nascimento do patriarca Abraão, cultuado nas três principais religiões monoteístas. No local, Francisco condenou a violência em nome de Deus como "a maior blasfêmia" possível.

"Deste lugar, onde nasceu a fé, da terra de nosso pai Abraão, vamos reafirmar que Deus é misericordioso e que a maior blasfêmia é profanar seu nome odiando nossos irmãos e irmãs", disse Francisco em Ur.

Sistani, de 90 anos, é uma das figuras mais influentes da vertente xiita do Islã, dentro e fora do Iraque , e o encontro foi o primeiro entre um Papa e um alto clérigo xiita. Após a reunião, Sistani pediu aos líderes religiosos mundiais que cobrassem responsabilidade das grandes potências e que a sabedoria e o bom senso prevaleçam sobre a guerra.

"A liderança religiosa e espiritual deve desempenhar um grande papel para acabar com a tragédia e exortar os lados, especialmente as grandes potências, a fazer prevalecer a sabedoria e o bom senso e apagar a linguagem da guerra", disse Sistani em comunicado, acrescentando que os cristãos devem viver como todos os iraquianos, em paz e coexistência — a população cristã no Iraque diminuiu de 1,5 milhão de pessoas para 300 mil depois da invasão americana de 2003 e as ações terroristas da al-Qaeda e do Estado Islâmico (EI), ambos ligados a interpretações fundamentalistas do Islã da vertente sunita.

O encontro entre o aiatolá e o Papa de 84 anos, a portas fechadas, aconteceu na casa humilde que Sistani aluga há décadas, localizada perto da cúpula dourada do santuário do Imã Ali em Najaf. Uma foto oficial do Vaticano mostra Sistani em seu tradicional manto xiita preto e turbante sentado em frente a Francisco.

Com este encontro religioso , um dos mais importantes da História, o papa argentino quer estender a mão ao islamismo xiita, mas também apoiar os cristãos do Iraque, que representam 1% da população do país e se dizem muitas vezes vítimas de discriminação.

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Na peregrinação a Ur, Francisco insistiu em rezar com dignitários yazidis — uma pequena minoria do Iraque martirizada pelos extremistas do EI — e também com sabeus e zoroastristas, comunidades milenares no país, além dos muçulmanos, xiitas e sunitas.

Com o vento do deserto soprando em sua batina branca, o Papa discursou tendo como cenário a vista da escavação arqueológica da cidade de 4 mil anos que compreende um zigurate, construção em formato de pirâmide da antiga Mesopotâmia com um complexo residencial e templos.

O Papa viajou cerca de 200 quilômetros entre a poeirenta cidade de Najaf e a planície desértica de Ur, reforçando o tema principal de sua arriscada viagem ao Iraque: que o país já sofreu muito.

A invasão dos EUA em 2003 mergulhou o Iraque em anos de conflito sectário. A segurança melhorou desde a derrota do Estado Islâmico em 2017, mas o Iraque continua a ser palco de ajustes de contas globais e regionais, especialmente por causa da rivalidade entre EUA e Irã — ainda que o atual governo iraquiano tenha os dois países como aliados e que milícias xiitas pró-Teerã tenham tido papel fundamental no combate ao EI.

Embora Abraão seja considerado o patriarca de cristãos, muçulmanos e judeus, nenhum representante do judaísmo esteve presente no evento interreligioso em Ur. Um funcionário cristão local disse que os judeus foram contatados e convidados, mas a situação para eles era "complicada", principalmente porque não tinham uma comunidade estruturada.

O Papa, que iniciou sua visita de quatro dias ao Iraque em Bagdá na sexta-feira, deve celebrar a missa deste sábado na Catedral Caldeia de São José, na capital. No domingo, ele viaja para o Norte, para Mossul, que durante três anos foi a capital do "califado" do Estado Islâmico, onde igrejas e outros edifícios ainda carregam as cicatrizes do conflito.

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