Trabalho com a ONG
Arquivo pessoal
Natural do Paraná, Letícia vive na Índia desde 2013 e comanda uma empresa de moda sustentável

Em meio à uma pandemia, é normal que as pessoas que vivem em lugares com menos infraestrutura para combater o vírus se sintam mais fragilizados e amedrontados com a possibilidade de um contágio. Porém, não é o que ocorre com brasileira Leticia Sales, uma paranaense que mora na Índia,  país que se tornou o novo epicentro da Covid-19 . Com mais de 4 milhões de casos, a Índia pode ultrapassar Brasil nos próximos dias.

“O que me deixou muito tranquila foi ver que o governo indiano se importava, que tentou fazer algo para conter a pandemia . Aqui, ninguém ousou dizer que não era algo importante. Falando pela minha experiência, conheço muito mais gente que pegou a Covid no Brasil, inclusive casos de óbito. Então, eu fiquei muito mais preocupada com os meus familiares do que eles comigo”, lembra.

Letícia conta que costumava fazer diversas viagens ao Brasil, mas está na Índia desde o mês de janeiro, o que fez com que vivenciasse o avanço do novo coronavírus (Sars-Cov-2) pelo país desde o início: os primeiros casos, o aumento exponencial com as fronteiras abertas, o rígido lockdown e a subsequente retomada das atividades, ponto em que a doença acabou atingindo o patamar atual, com mais de 4 milhões de infectados.

Peeyush Rastogi
Arquivo pessoal
Peeyush é companheiro de Letícia também no trabalho

“Lembro de ter ouvido histórias muito tristes, de pessoas que ficaram presas fora de seus estados ou cidades de origem e enfrentaram problemas financeiros. Houve casos até de pessoas que, sem a opção de transporte, fizeram viagens a pé de mais de mil quilômetros para tentar voltar para casa. Foram situações bastante dramáticas, típicas de um país em desenvolvimento. Mas, de uma maneira geral, a maioria da população obedeceu ao lockdown”, diz.

E foi exatamente a quarentena forçada que acabou trazendo duas grandes mudanças para a vida de Letícia. Noiva de um indiano, Peeyush Rastogi, ela morava sozinha e fazia planos para o casamento em dezembro de 2020, já contando com a vinda de toda a família do Brasil para a cerimônia. Porém, a pandemia acabou adiando todo o planejamento e forçou até uma mudança “cultural” na rotina dos noivos.

“Foi uma coisa bastante curiosa. Aqui na Índia , os pais dos noivos não aceitam que eles morem juntos antes do casamento. Porém, com o (novo) coronavírus, não teve jeito. Eu não tinha condições de ir ao mercado sozinha e sem carro. Então, eles me convidaram para ir morar com eles. No fim, a gente se adaptou super bem, foi uma ótima experiência, que nos mostrou como será nossa vida depois do casamento. Então, foi algo interessante que aconteceu no meio de uma situação tão ruim”, relembra Letícia.

O nascimento da Happee

Happee
Reprodução/Facebook
Objetivo de transformar através da moda e de boas práticas sociais e ambientais

O sonho de conhecer diversos países do mundo levou a estilista formada em moda e com pós-graduação em negócios internacionais de São Paulo diretamente a Jaipur , cidade que é capital do estado do Rajastão. Atraída pelo forte polo têxtil da região, ela acabou conseguindo um emprego ainda em 2013 e "acabou ficando". Após conhecer o noivo Peeyush, decidiu apostar em um negócio próprio no mundo da moda focado no impacto social.

“Nossa marca tem o intuito de fazer o mundo um pouco melhor através da moda , que é uma área que explora muita mão de obra e polui demais o meio ambiente. Então, nós só trabalhamos com tecidos sustentáveis, processos manuais de estamparia, com foco nos artesãos locais, e temos também uma parceria com uma ONG que trabalha com o empoderamento feminino ”, revela.

A relação funciona da seguinte forma: desde o início da pandemia , foram feitas três campanhas para angariar fundos e auxiliar grupos distintos. A primeira consistiu na doação de mais de 200 cestas básicas para famílias que perderam a renda por conta do lockdown . Já nas outras duas, o objetivo foi a confecção de máscaras juntamente com as artesãs que já trabalhavam com a empresa. Muitas foram doadas para policiais e em favelas de Jaipur, enquanto outras foram vendidas pela internet e a renda revertida para as trabalhadoras.

Nesta última, cada uma das vendas realizadas também proporcionou um kit com um absorvente menstrual de pano para uma mulher indiana assistida pela ONG : “foi uma campanha de conscientização. Aqui na Índia, 74% das mulheres não têm acesso a absorventes durante o período menstrual, é um item bastante inacessível. Isso gera muitas doenças, infertilidade e maior índice de mortalidade materna. Então, foi uma ação muito legal, conseguimos enviar os kits, que proporcionam 5 anos de saúde menstrual, para mais de 200 mulheres”.

Tal repasse só foi possível porque, segundo ela, muitas mulheres abraçaram a causa, principalmente as brasileiras , que representam 90% do principal público consumidor da empresa: “as pessoas parecem estar muito mais conscientes, mais solidárias, entendendo a importância de ajudar o próximo. Vejo que a pandemia mudou isso nas pessoas, gerou essa preocupação com causas sociais”.

“Não podemos ficar trancados para sempre”

Índia
Reprodução/Twitter
Apesar do medo, indianos tentam retomar um pouco da normalidade após o rígido lockdown

Desde a reabertura, após o término da quarentena de mais de dois meses, a Índia vem acompanhando o aumento no número de casos da Covid-19 e das mortes, que já somam mais de 67 mil e colocam o país atrás apenas de EUA e Brasil no ranking dos mais afetados. Porém, como lembra Letícia, outro fator foi crucial para a “explosão” de infectados pelo novo coronavírus: o número de testes realizados pelo governo.

“Quando chegamos a dois meses de lockdown, o governo já tinha aumentado a capacidade de testagem para 300 mil por dia. Hoje, esse total já atingiu a marca de mais de um milhão de testes diários, que era uma meta do governo. Então, é normal que o número suba mesmo e que a Índia ultrapasse o Brasil, um país que a gente nem sabe ao certo quantos testes fez”, afirma.

Apesar de criticar algumas decisões do governo, como a repatriação de cidadãos só após o término da quarentena, Letícia vê a retomada como uma questão inevitável e diz não acreditar em uma subnotificação muito grande no país, principal problema apontado por especialistas em saúde.

“Existir, ela existe, como também ocorre na maioria dos países. Porém, o governo está testando bastante e o número de óbitos não escalonou tão rapidamente. Isso é algo muito difícil de ser escondido porque muitos indianos morrem em casa e os familiares têm o costume de cremar os corpos em piras de madeira. Então, se isso estivesse ocorrendo, seria difícil de esconder. O problema é, sim, o tipo de teste usado, que é daquele mais rápido e não o PCR, com uma margem de erro maior”, afirma.

“Agora, com quase tudo funcionando por aqui, mesmo o aumento no número de casos não parece ser algo alarmante, que traga desespero ao povo. Todo mundo entende que é uma situação que dificilmente vai ser resolvida em breve. Sinto que as pessoas estão com um sentimento de ‘tentamos fazer o máximo de lockdown possível, não foi suficiente, mas é hora de tentar retomar a vida, para que possamos voltar a ter certa normalidade. Não podemos ficar trancados para sempre”, finaliza.

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