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Anulação vem após episódio de violência em Cartum, em que forças armadas atuaram para dispersar manifestantes e acabaram matando 30 pessoas

Protestos Sudão
Reprodução/Twitter
Protestos na cidade de Cartum acabaram com 30 pessoas mortas

O Conselho Militar de Transição do Sudão anunciou que cancelará todos os acordos anteriores com a principal coalizão de oposição, disse o chefe da junta em um comunicado televisionado.

O cancelamento segue episódios de violência na cidade de Cartum, capital do Sudão , em que forças de segurança atuaram para dispersar manifestantes que estavam do lado de fora do Ministério da Defesa. A repressão deixou cerca de 30 mortos.

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O tenente-general Abdel Fattah al-Burhan disse que a coalizão era igualmente responsável pelo atraso em chegar a um acordo e afirmou que as eleições seriam realizadas dentro de nove meses.

Nesta segunda-feira (3), a mando da junta militar que assumiu o poder no Sudão após a derrubada do ditador Omar al-Bashir  , em abril, as  forças de segurança do país dispersaram o acampamento popular montado há várias semanas diante do quartel-general das Forças Armadas em Cartum .

Agentes de segurança fortemente armados circulavam por toda a capital em veículos, e tiros foram ouvidos na área onde vinham se concentrando milhares de manifestantes  . A operação deixou pelo menos 30 mortos, de acordo com um comitê médico local.

Desde 11 de abril, quando Bashir foi derrubado pelo Exército na esteira de meses consecutivos de protestos populares — iniciados em 19 de dezembro após a decisão do governo de triplicar o preço do pão —, a oposição exige que os militares entreguem o poder a civis.  Os manifestantes que primeiro exigiam a queda do presidente, que ocupou o poder por três décadas, agora pressionam incansavelmente pelo recuo do Conselho Militar de Transição do Sudão, chefiado pelo tenente-general Abdel Fattah al-Burhan .

Estados Unidos e Reino Unido pediram nesta segunda-feira o fim imediato da repressão dos manifestantes. E o secretário-geral da ONU , Antonio Guterres, condenou o uso excessivo da força. Segundo o Comitê Central de Médicos Sudaneses, organização ligada aos manifestantes, há um grande número de pessoas gravemente feridas em decorrência do desmantelamento do acampamento popular, que servia como ponto central dos protestos.

O Conselho Militar de Transição negou, porém, ter dispersado à força os opositores. Em entrevista ao canal Sky News Arabia, o porta-voz e general Shamsedin Kabashi afirmou que as forças de segurança atuaram somente numa "zona perigosa" conhecida como "Colômbia",  perto do local dos protestos, onde segundo eles existem "corrupção e atividades ilícitas".

"Não dispersamos o acampamento à força. As barracas continuam no local, e os jovens podem circular livremente", declarou o porta-voz do Conselho, o general Shamsedin Kabashi, ao canal Sky News Arabia, com sede nos Emirados Árabes Unidos.

No mês passado, fracassaram as negociações entre militares e oposição para um calendário de transição, levando à convocação de novas manifestações. A Aliança pela Liberdade e a Mudança (ALC), que lidera os protestos, chama de "golpista" o Conselho Militar de Transição e insta a população a participar de uma "greve e a desobediência civil total e indefinida" a partir desta segunda-feira.

""No momento, não resta ninguém diante do quartel-general das Forças Armadas, apenas os cadáveres de nossos mártires, que não conseguimos retirar", disse a ALC.

A Associação de Profissionais Sudaneses (APS), a organização que iniciou os protestos, chamou de "massacre" o desmantelamento do acampamento popular. Também pediu que os sudaneses se engagem em atividades de "desobediência civil total para derrubar o Conselho Militar pérfido e assassino".

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O ministro das Relações Exteriores do Reino Unido condenou o ataque aos manifestantes, que chamou de "passo escandaloso". "O Conselho Militar é plenamente responsável por esta ação, e a comunidade internacional vai cobrar", escreveu Jeremy Hunt no Twitter.

O comandante do Conselho Militar, Abdel Fatah al Burhan, visitou recentemente Egito, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, três países que têm expressado apoio aos militares sudaneses, inclusive com a liberação de crédito. O Egito, governador por militares, e a Arábia Saudita, uma monarquia absolutista, se opõe a uma transição rápida para um poder civil, alegando que isso pode desestabilizar o país. Segundo analistas, as autocracias árabes temem que transições democráticas na região influenciem o movimento por liberdade em seus próprios países.