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Eleitos 'Pessoa do Ano' pela revista Time, profissionais da imprensa foram presos após investigarem abusos contra minoria muçulmana rohingya

Jornalistas Mianmar
Reprodução/Time
Jornalistas foram liberados após anúncio de anistia da presidência do país para 6.500 presos

Mianmar libertou nesta terça-feira os dois jornalistas da Reuters que estavam detidos por investigarem a crise dos rohingyas, em caso que gerou reação global contra restrições à liberdade de imprensa no país. Vídeo publicado pela agência na qual trabalham informou que os profissionais foram agraciados por uma anistia presidencial.

Em comunicado, a Presidência de Mianmar anunciou que anistiaria e soltaria 6.500 detentos nesta terça-feira, medida tradicional no país no período do Ano Novo, que ocorreu em 17 de abril. Wa Lone, 33 anos, e Kyaw Soe Oo, 29, foram cercados por jornalistas ao saírem da prisão em Rangun, onde passaram mais de 500 dias detidos. A agência declarou estar "extremamente contente" com a soltura do que chamou de "valentes repórteres".

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Wa Lone agradeceu as pessoas "de todo o mundo" que defenderam sua libertação e prometeu voltar ao trabalho.

"Estou muito feliz e animado para ver a minha família e amigos. Mal posso esperar para chegar à redação. Sou jornalista e vou continuar", ressaltou ele.

A dupla ficou presa durante 511 dias na prisão de Insein, em Yangon, e se tornou símbolo mundial da importância da liberdade de imprensa. Wa Lone e Kyaw Soe Oo foram dois dos jornalistas eleitos "Pessoa do Ano"pela revista Time, que celebrou em 2018 os chamados "guardiões da verdade" — profissionais da mídia perseguidos e mortos por agentes estatais por fazerem seu trabalho.

Os dois eram acusados de acessar documentos secretos relativos às operações das forças de segurança de Mianmar no estado de Rakhain, no noroeste do país, palco de diversos abusos contra a minoria muçulmana rohingya. Eles haviam sido condenados a sete anos de cadeia no âmbito da Official Secrets Act (Lei de Segredos Oficiais, em tradução livre), que data da época colonial.

No momento da prisão , em dezembro de 2017, os dois investigavam um massacre de dez homens e meninos rohingyas em Inn Din, localidade do norte do estado de Rakhain. Desde então, o Exército reconheceu que ocorreram excessos, e sete militares foram condenados à prisão. Os jornalistas ganharam o celebrado prêmio Pulitzer pela matéria "Massacre em Mianmar", que foi concluída pelos colegas Simon Lewis e Antoni Slodkowski e publicada em fevereiro passado.

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Um dos policiais que depôs sobre o caso disse que a entrega dos documentos secretos foi uma "armadilha" para impedir que os jornalistas prosseguissem com seu trabalho. Há uma semana, a Suprema Corte de Mianmar havia rejeitado os últimos recursos possíveis dos jornalistas. O recurso para o tribunal mais antigo do país, o Supremo Tribunal, citou a falta de provas da acusação e as provas plantadas pela polícia.

A prisão dos repórteres provocou protestos de defensores da liberdade de imprensa , diplomatas ocidentais e líderes mundiais, aumentando a pressão sobre a presidente de Mianmar , Aung San Suu Kyi, vencedora do prêmio Nobel em 2016, que assumiu o poder em meio a uma transição para a democracia do regime militar.