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Ativista sumiu durante protesto indígena e oposição acusa governo de ser responsável pelo sumiço e acobertar o crime

Um caso de polícia paralisou a Argentina e virou pauta de discussão da eleições legislativas do país, marcadas para o próximo domingo. O desaparecimento do artesão Santiago Maldonado, há quase três meses, reacendeu a discussão sobre a impunidade em casos de desaparecidos políticos durante a ditadura militar do país (1976-1983). E a espera pela necropsia de um corpo que pode ser de Maldonado fez os candidatos, tanto do governo, quanto da oposição, suspenderem os últimos atos de campanha.

Santiago Maldonado, de 28 anos, foi visto pela última vez na província de Chubut, no sul da Argentina, a 80 quilômetros da estação de esqui de Bariloche. Ele participava de um protesto de ativistas indígenas, perto da fronteira com o Chile, que reclamavam o direito sobre terras adquiridas pela empresa Benetton nos anos 1990. Os manifestantes estavam bloqueando uma estrada e as forças de segurança foram chamadas para retirá-los e liberar o trânsito. Segundo testemunhas, Maldonado foi visto pela última vez sendo arrastado pela polícia militar argentina.

Fotografias de Santiago Maldonado estampam redes sociais e cartazes, em uma campanha para localizar o ativista
Reprodução Facebook
Fotografias de Santiago Maldonado estampam redes sociais e cartazes, em uma campanha para localizar o ativista

“O caso Maldonado tem uma forte conotação politica, porque ele desapareceu num episódio envolvendo as forças de segurança”, explicou o analista politico Roberto Bacman. “Ele é um desaparecido da democracia, num país que ainda não curou as feridas do regime militar”.

Desde então, a família do jovem, movimentos sociais de esquerda e organizações de defesa dos direitos humanos têm feito intensa campanha. Seu rosto passou a estampar páginas de redes sociais, jornais e cartazes no centro de Buenos Aires.

Candidata da oposição ao Senado, Cristina Kirchner participou de uma missa em homenagem ao ativista e faz coro às críticas de que o governo está protegendo as forças de segurança, sem investigar a atuação dos policiais na repressão do protesto. Já outra candidata ao senado, Margarita Stolbizer, afirmou que, Patricia Bullrich, a ministra de Segurança Nacional, “não deveria ocupar o cargo”. O governo nega as acusações e diz que fez tudo a seu alcance.

Essa semana, um corpo foi encontrado no Rio Chubut, com a identidade do artesão. Os médicos forenses estão proibidos de utilizar celulares durante o trabalho de reconhecimento. Mas, a quatro dias das eleições legislativas, o noticiário foi dominado por especulações e teorias conspiratórias – inclusive a de que o corpo havia sido “plantado” para encerrar as investigações.

Desaparecimentos forçados

Na Argentina, os organismos de direitos humanos exigem a “devolução com vida dos 30 mil desaparecidos” do período militar. Muitos deles foram levados a centros clandestinos de tortura e depois jogados de aviões no Rio da Prata, ou enterrados em fossas comuns – sem deixar rastro. O “desaparecimento forçado” passou a ser um crime que não prescreve e cujos responsáveis estão sendo julgados e punidos até hoje.

*com informações da Agência Brasil e La Nación

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