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Pela primeira vez na história da Quinta República, fundada em 1958, eleição presidencial não terá um de seus dois principais partidos na segunda etapa

Emmanuel Macron e Marine Le Pen irão disputar o segundo turno das eleições na França
Reprodução/Facebook/montagem iG
Emmanuel Macron e Marine Le Pen irão disputar o segundo turno das eleições na França

O primeiro turno das eleições presidenciais na França terminou conforme as expectativas dos institutos de pesquisa : com o liberal Emmanuel Macron, de 39 anos, e a ultranacionalista Marine Le Pen, de 48, na frente. Com 98% das urnas apuradas até as 22h30, já se sabe que os candidatos do movimento de centro Em Marcha! (23,86%) e da ultranacionalista Frente Nacional (21,43%) disputarão o segundo turno, em 7 de maio, para saber quem comandará a maior potência militar da Europa e uma das maiores economias do planeta.

O resultado marca uma derrota do establishment político, que pela primeira vez na história da Quinta República da França , fundada em 1958, não terá um de seus dois principais partidos no segundo turno.

Desde o fim de fevereiro, quando o conservador François Fillon (Os Republicanos) passou a cair nas pesquisas, praticamente todos os levantamentos apontavam uma disputa entre Macron e Le Pen, apesar do crescimento do esquerdista Jean-Luc Mélenchon na reta final.

"Gostaria de dizer que, nesta noite, nós mudamos a cara da política francesa. Levarei adiante a exigência de otimismo e esperança que queremos para nosso país e para a Europa", declarou Macron .

Há três anos, ele era um desconhecido assessor do presidente François Hollande , que o alçou ao Ministério das Finanças em outubro de 2014. No comando da economia, Macron patrocinou uma lei para flexibilizar a legislação trabalhista, que acabou aprovada no ano passado, mas esvaziada em relação ao texto original e após muitos protestos.

Em outubro, deixou o cargo para se concentrar no movimento Em Marcha!, que leva as iniciais de seu nome e foi criado em abril de 2016. Sua candidatura decolou apenas em janeiro de 2017, em uma ascensão que lembra os surgimentos de Tony Blair, no Reino Unido, e Matteo Renzi, na Itália.

Com um discurso carismático, o ex-ministro soube escapar dos extremismos e conquistar votos tanto à esquerda quanto à direita. Europeísta, liberal e ex-banqueiro, promete agir para reforçar a União Europeia e reduzir a intervenção do Estado na economia.

Adversária

Marine Le Pen era dada como certa no segundo turno, mas sua confirmação nas urnas é um sinal de alerta para a UE - ela recebeu mais de 7,2 milhões de votos, o melhor resultado na história da Frente Nacional. A ultranacionalista propõe retirar o país da zona do euro, retornando ao franco, e convocar um referendo sobre a presença do país no bloco.

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Seu programa econômico é intervencionista e prevê aumento de impostos sobre a contratação de estrangeiros. Além disso, ela diz que seu primeiro ato será retomar o controle sobre as fronteiras francesas. Le Pen ainda quer bloquear totalmente a imigração clandestina e limitar a entrada de imigrantes legais em 10 mil por ano.

"Vocês me levaram ao segundo turno. Estou honrada, com humildade e reconhecimento. Quero exprimir minha profunda gratidão. Esse resultado é histórico", declarou a candidata.

Segundo as pesquisas, Macron entra como franco favorito no segundo turno: a maioria aponta uma diferença de 20 pontos entre os dois, e nenhuma delas coloca Le Pen na liderança. Também conta a favor do centrista o pouco tempo que sua rival terá para reverter a vantagem - serão apenas duas semanas até a votação de 7 de maio.

Apoio

Assim como ocorreu em 2002, quando o fundador da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, perdera de lavada o segundo turno para Jacques Chirac (82% a 18%), o establishment político já está unindo forças contra sua filha.

O primeiro a declarar voto em Macron foi o candidato do Partido Socialista, Benoît Hamon, que pagou o preço da impopularidade de Hollande e terminou apenas na quinta posição (6%). "Eu faço distinção total entre um adversário político e um inimigo da República. Apelo para vencermos da maneira mais forte possível a Frente Nacional, ao votarmos por Emmanuel Macron, mesmo que ele não pertença à esquerda", disse.

Outros expoentes socialistas, como o primeiro-ministro Bernard Cazeneuve e o ex-premier Manuel Valls, confirmaram seu apoio ao líder do Em Marcha!. "A presença de uma candidata de extrema direita no segundo turno das eleições presidenciais apela a uma posição forte de todos. Por essa razão, lhes peço solenemente para votarem em Emmanuel Macron", afirmou Cazeneuve.

Já Valls, que votou no liberal no primeiro turno, declarou que as pessoas devem "medir a gravidade do momento" e apoiá-lo. Por sua vez, o terceiro colocado Fillon (19,77%) disse que o extremismo não pode "levar aflição e divisão". "Portanto, não há escolha que não seja votar contra a extrema direita", salientou.

Representante da direita tradicional, Fillon era favorito para chegar ao segundo turno, mas acabou derrubado pelas denúncias de que teria colocado a esposa e os filhos em empregos fantasmas na Assembleia Nacional.

Segurança

As eleições transcorreram sob clima de tensão devido à ameaça do terrorismo, agravada após o ataque da última quinta-feira (20) na avenida Champs-Élysées, em Paris . No entanto, apesar de breves evacuações em alguns colégios eleitorais por alarmes falsos, nenhum episódio grave foi registrado. Os candidatos tiveram de votar sob forte esquema de segurança .

Entretanto a polícia entrou em confronto contra movimentos antifascistas que saíram às ruas da capital francesa para protestar contra o resultado das eleições. "Todos os principais candidatos, Macron, Fillon, Le Pen, estão lá apenas para perpetuar a dominação da oligarquia que confisca o poder e rouba as riquezas do povo", disse um manifestante à agência "AFP".

O candidato preferido por esses movimentos, Jean-Luc Mélenchon (França Insubmissa), terminou na quarta posição, com 19,16%, segundo os números divulgados até aqui. Ao todo, mais de 55 mil agentes das forças de ordem fizeram a segurança do pleito presidencial.


* Com informações da Ansa

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