Bruno Logan, psicólogo e redutor de danos
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Bruno Logan, psicólogo e redutor de danos




Em 1990, surgia, no bairro da Luz, em São Paulo, a primeira Cracolândia. A região é ocupada por pessoas em situação de rua, muitas delas usuários de crack e traficantes. A primeira apreensão de crack na capital paulista foi noticiada em 22 de junho. Mais de trinta anos depois, o problema persiste, mas em outro endereço: a Praça Princesa Isabel. Nos últimos tempos, o local vem sendo palco de diversas ações policiais de dispersão e repressão ao tráfico .

Desde a formação da Cracolândia, políticos de diversos partidos passaram pela prefeitura de São Paulo. Muitos tentaram acabar com a Cracolândia — alguns, como João Doria (PSDB), chegaram até a prometer que o fariam. Foram diversas estratégias diferentes, das mais repressoras, como a "Operação Dor e Sofrimento", até as mais acolhedoras, como o programa "De Braços Abertos", lançado por Fernando Haddad (PT). Mas, até hoje, nenhum deles conseguiu.

Afinal, seria possível acabar com a Cracolândia? Talvez sim. Mas, para isso, seria preciso pensar em uma estratégia que contemplasse a complexidade que o problema merece, segundo o psicólogo e redutor de danos Bruno Logan . Para ele, desde o surgimento da Cracolândia, o único tipo de intervenção que o Estado levou para aquele território foi de ordem militar — o que não leva e nunca levou a nada. Leia a entrevista na íntegra:


A Cracolândia existe já há mais de 20 anos. Por que o problema persiste?

A Cracolândia existe com esse nome há mais de 20 anos. Mas, a região é um território que vem sofrendo diversos tipos de intervenções policiais já há muito tempo, desde a década de 70. De lá para cá, a única intervenção que o Estado levou para aquele território foi de ordem militar, de repressão. Seja pela questão dos prostíbulos, pelo uso de drogas ou por qualquer outra questão, a polícia sempre arruma alguma justificativa para chegar lá batendo e atirando. Eu acredito que a Cracolândia ainda persiste justamente por isso — pelo fato de o poder executivo querer dar uma resposta simplista, de repressão, a um problema complexo . Obviamente, há pessoas ali que fazem uso de crack. Mas também tem indivíduos que só fazem uso de álcool, por exemplo. Outros, ainda, não fazem uso de absolutamente nada, mas estão em situação de rua e estão naquele território para se proteger — se cada um estiver em um canto da cidade, naturalmente, eles ficam mais vulneráveis. Então, acho que o problema persiste porque a resposta do Estado é simplista, de repressão. Uma ação muito boa que houve ali foi o programa "De Braços Abertos", lançado pelo ex-prefeito Fernando Haddad (PT) [que oferecia moradia, alimentação, trabalho e renda aos moradores da Cracolândia]. Minha única crítica ao programa — muito severa, por sinal —, é que houve pouco financiamento. Foi possível ajudar entre 200 e 250 pessoas, das cerca de 4 mil que habitavam a Cracolândia na época.


Nos últimos meses, a polícia vem fazendo inúmeras ações de repressão na Cracolândia para tentar enfraquecer o tráfico de drogas. Afinal, enfraquecer o tráfico funciona no combate ao narcotráfico?

Eu fico bastante preocupado com essa questão de "enfraquecer o tráfico", tentar repreender. É claro que ninguém é contra que haja alguma ação de repressão ao tráfico. Mas, é preciso falar sobre a ineficácia do proibicionismo . Não importa o que se faça, onde houver demanda, haverá oferta. Na Coreia do Norte, a Bíblia é proibida e, mesmo assim, o livro é vendido clandestinamente. Talvez a solução seja realmente a descriminalização das drogas.


Seria possível legalizar o crack?

Quanto mais se tenta reprimir alguma substância, maior será o lucro, e maior será a violência. A maconha, por exemplo, tem vários efeitos medicinais, terapêuticos e afins. Mas, a repressão à maconha mata. Mata de bala perdida até quem nunca nem sequer experimentou maconha. O crack segue a mesma lógica . Ao proibir e reprimir o crack, o único resultado disso serão pessoas usando um crack mais prejudicial, indivíduos com problemas de dependência tendo contato com o crime organizado, o fortalecimento do crime organizado, troca de tiro de traficante com a polícia e por aí vaí. Não tem como um negócio desses dar certo. Vamos estabelecer um paralelo entre o crack e a heroína, por exemplo, uma droga muito danosa que não existe de forma substancial no Brasil. Há quase cem anos, em 1926, médicos britânicos escreveram o chamado relatório de Rolleston, que propunha a descriminalização do usuário como a melhor forma de lidar com a heroína. Desta forma, ele perderia o medo de ser preso e procuraria cuidado quando necessário. Se alguém está com uma pessoa que começa a ter uma overdose e passa uma viatura, muitas não pedem ajuda por medo de serem presas. É certo deixar alguém morrer de overdose por medo de ser preso? Em um cenário no qual o usuário fosse descriminalizado, isso não ocorreria. Para além disso, o relatório chegou a sugerir que a própria heroína fosse legalizada, e aqui tem um ponto importante. Quando se pensa "legalizar”, logo vem à mente a palavra "vender", mas legalizar não é sinônimo de vender. Legalizar é que o Estado tenha o controle daquela substância, e não mais o tráfico. Eu tenho um  canal no YouTube no qual falo sobre drogas e redução de danos e, recentemente, fiz um vídeo sobre um possível modelo de legalização do crack , baseado nesse relatório. Os médicos propunham que a heroína fosse prescrita, pelo Estado, aos dependentes da droga para que tivessem acesso a ela.  Assim, o paciente rompia o vínculo com o tráfico e era inserido dentro do sistema de saúde, com acesso a uma equipe multidisciplinar composta por médicos, psicólogos, assistentes sociais, entre outros. Então, tem, sim, como legalizar o crack.


Em países mais desenvolvidos, como Alemanha, Austrália, Canadá, Dinamarca, Espanha, Holanda e Suíça, há as chamadas "salas de shoot", as "salas de consumo seguro de drogas com risco mínimo". Nos locais, dependentes químicos fazem uso de drogas pesadas, como heroína e cocaína, sob supervisão médica. A iniciativa seria factível no Brasil?

Acho que seria factível, porém, improvável. Existem no Brasil as chamadas "bancadas", e duas delas têm muito interesse na questão das drogas. A bancada da bala tem interesse em ganhar verba pública para o "combate às drogas", então, para eles [políticos que defendem políticas armamentistas], é interessante assistir a essa guerra — o que, diga-se, não faz o menor sentido, porque tanto traficantes quanto policiais estão morrendo. E, em segundo lugar, a bancada da Bíblia, que tem grande interesse em prolongar essa guerra para continuar tendo aquele discurso moralista de que quem usa droga é bandido, doente, marginal. O governo Bolsonaro foi o que mais financiou instituições religiosas de tratamento, forçado ou não, sendo que o tratamento comprovadamente mais eficaz é o cuidado em liberdade [inserção do adicto em um cuidado de saúde para que ele faça um uso controlado e seguro da substância que provoca a sua dependência]. Então, eu acho o seguinte… há aqueles que querem parar de fazer o uso de drogas. Nesse caso, oferece-se tratamento. Para aqueles que não querem, ou não conseguem, que, pelo menos, haja um espaço onde eles serão cuidados. Se a pessoa está na rua usando droga, ela foge de um lado para o outro, foge de comerciante, foge da polícia, gera confusão no bairro. Nessas salas, ela está em um ambiente seguro. Se um dia ela estiver lá, fazendo uso de droga e decidir, por conta própria, que quer parar, ela já está totalmente amparada por toda uma equipe multidisciplinar. Mas, agora eu te pergunto: que político vai fazer uma sala de uso seguro no Brasil? Nenhum. A população é desinformada sobre drogas — e é do interesse de alguns grupos que a sociedade permaneça assim, na ignorância. Por isso, eu sou contra um plebiscito para decidir, por exemplo, se a maconha deveria ser descriminalizada. Os conservadores querem muito fazer isso. Dizem: 'Vamos escutar a população'. É claro. A população é desinformada sobre a questão das drogas, então a resposta de um plebiscito será negativa. Informa as pessoas para você ver. Hoje, por exemplo, se houvesse um plebiscito para decidir sobre retomar a veiculação das propagandas de cigarro, ninguém votaria a favor de um negócio desses, porque eles foram informados sobre o assunto. Para fazer um bom plebiscito, as pessoas precisam ser informadas. Neste caso, a informação é: a implantação de salas de uso seguro faria com que os usuários saíssem da rua, recebessem cuidado e usassem drogas menos prejudiciais. O Estado poderia até não fornecer a substância, mas poderia testar para saber o que está sendo consumido. Na rua, eles estão ali, à mercê de bomba de gás lacrimogêneo e bala de borracha do Estado.


É correto pensar que os usuários de crack se concentraram na Cracolândia porque viraram reféns da droga e deixaram de ser pessoas funcionais?

Muito pelo contrário. Pensa comigo: uma pedra de crack custa, vamos supor, R$ 10. Se você perguntar a um morador da Cracolândia que fuma o dia inteiro quantas pedras ele usa diariamente, ele vai te dizer, sei lá, 15, 20. Um cara em situação de rua levanta R$ 200 por dia. Você acha que esse cara não é produtivo? Ele tem que ter algum tipo de organização. Falam que eles ficam roubando, mas a maioria faz trabalho de reciclagem. Há aqueles que fazem pequenos furtos, sim, não estou negando isso. Mas é um erro pensar que todo mundo ali rouba e não é produtivo. Levantar R$ 200 por dia não é para qualquer um, ainda mais para alguém em situação de rua. Outro ledo engano é pensar que as pessoas estão na Cracolândia porque usam crack. Pensar assim é inverter a lógica . Você acha que alguém acorda um dia e pensa: "Acho que vou experimentar crack hoje"? Acho que esse tipo de coisa até deve acontecer, mas em um percentual muito baixo. Se você sentar com um morador da Cracolândia e perguntar por que ele está lá, em um primeiro momento, ele vai te dizer que o crack arruinou a vida dele, porque esta é a resposta mais socialmente aceita. Mas, se você conversar  a fundo com ele, vai descobrir que, por trás disso, há uma sucessão de tragédias que o levaram até aquele lugar. Ele vai te falar algo como: 'Eu fugi de casa com 10 anos porque meu padrasto era alcoólatra e batia na minha mãe, fui morar na rua, fiz um pequeno assalto, fui para a FEBEM [Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor], saí, voltei para a rua de novo, tive contato com o crack e aqui estou. Ou seja, o crack é só mais um elemento. Eu sempre digo que, se eu estivesse na rua, dependendo da situação, talvez eu também usasse droga. Oito graus de madrugada, eu com frio, fome e sede, fugindo da polícia. Não tenho acesso a esporte, lazer, cultura e moradia. Se eu fumar uma pedra, pelo menos vou ter um baita prazer e esquecer da minha realidade por alguns instantes. Inclusive, se for tirado o crack dos moradores da Cracolândia, não se está melhorando em nada a vida dessas pessoas. O que se está colocando no lugar? Acho que o que o Haddad fez foi interessante. Primeiro, você dá dignidade para aquele sujeito. Moradia, trabalho, documento, educação, saúde, para depois pensar na questão do crack. O que adianta fazer uma ação de repressão? Não adianta nada. É só para poder mostrar na televisão. E repare que isso sempre acontece em ano eleitoral.


Então o uso do crack está associado à pobreza?

Também não. Pensar assim é outro ledo engano. Os usuários de crack que estão na rua são aqueles "identificáveis", por assim dizer. Eu trabalhei na Cracolândia por dois anos e já vi muita coisa por lá — inclusive, ator global que passa de carro, abre o vidro, pega uma pedra e vai embora. É complicado porque existe todo um estereótipo da pessoa em situação de rua como alguém que fuma crack. Às vezes, o indivíduo nunca viu crack na vida, mas está na rua. O uso de crack não está associado à pobreza.


Afinal, a Cracolândia pode um dia ter fim?

Depende do que você quer dizer com "fim". Esse território, hoje conhecido como Cracolândia, é uma aglomeração de pessoas em situação de pobreza e vulnerabilidade extrema. E, para acabar com a Cracolândia, é preciso esquecer o crack. Temos que pensar: Nós vamos acabar com a pobreza e a miséria? Vamos olhar para a pobreza, a miséria, a falta de acesso e a violação de direitos humanos das pessoas que estão vulneráveis no centro de São Paulo? Se olharmos para essas questões, talvez, um dia, seja possível não acabar com a Cracolândia, mas diminuir muito o sofrimento e a dor daquelas pessoas. Talvez a Cracolândia não tenha um fim definitivo, mas garantindo esporte, lazer, cultura e moradia àqueles indivíduos, talvez eles tenham um pouco de dignidade ali. Enquanto a política pública foca no fim do crack, na redução extrema da droga, os esforços deveriam ser voltados para a garantia extrema de direitos humanos e a garantia extrema de acesso a esporte, lazer, cultura e moradia. Quando esse for o foco, com certeza, o que nós temos hoje conhecido como Cracolândia não vai mais existir. Algumas pessoas podem até continuar fazendo uso de crack na região, mas certamente, não do jeito que está hoje.

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