Ex-ministro do Turismo, Vinicius Lummertz
Alan Morici
Ex-ministro do Turismo, Vinicius Lummertz

Neste mês a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, chamada de Eco-92, que nós rebatizamos de Rio-92, completa 30 anos. Saudades de um tempo em que o Brasil teve protagonismo positivo associado ao meio ambiente. Durante quase duas semanas, 178 chefes de governo estiveram no Rio de Janeiro. Do alemão Helmut Kohl ao cubano Fidel Castro, do americano George Bush (o pai) ao francês François Mitterrand.

“Não foi um evento, foi um exercício impressionante de equilíbrio entre o globalismo e o nacionalismo”, disse o então secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Boutros Ghali. No Brasil, o então presidente Fernando Collor de Mello transferiu a capital federal para o Rio de Janeiro. A segurança foi reforçada, como em qualquer lugar do mundo. E tudo transcorreu na mais completa tranquilidade.

Na certeza da época, os países ricos eram os responsáveis pelos maiores riscos ao meio ambiente, por tudo o que degradaram para crescer e pelo consumo exagerado de suas sociedades, enquanto os em desenvolvimento – Brasil à frente – precisavam receber aportes financeiros internacionais para o crescimento ambientalmente sustentável.

Passadas três décadas, o meio ambiente está dramaticamente presente nas discussões cotidianas. Sementes plantadas em 1992 crescem aqui e ali, como o conceito de desenvolvimento sustentável, eventualmente “embedado” em outros termos – como o mais atual e corporativo ESG. Também ganha relevância midiática. Em 2007, o ex-vice-presidente e ex-futuro-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, ganhou o Nobel da Paz por sua dedicação a divulgar as mudanças climáticas causadas pelo homem – exemplo mais famoso, o filme “Uma verdade inconveniente”.

Infelizmente, os exemplos negativos são palpáveis. Um mês antes da Rio-92, o Governo Federal havia demarcado a reserva Yanomami na fronteira com a Venezuela – dizem que para fazer bonito na conferência. Trinta anos depois, os jornais noticiam as tentativas de rever essa demarcação e exibem imagens dos garimpos ilegais naquelas mesmas terras.

Há também as falhas, sempre dramáticas, como o vazamento de petróleo no Golfo do México em 2010 ou o rompimento da barragem de rejeitos de Mariana em 2015.

Passados 30 anos, a sensação é de que coisas não mudaram e, eventualmente, pioraram. Os “eventos extremos”, como são chamadas as reações da natureza, imediatamente são associados ao desmazelo da humanidade para com o meio ambiente. Uma herança que não combina, definitivamente, com o termo sustentabilidade.

Novos fatores, além dos climáticos, ampliam em muitos graus a instabilidade do planeta. A Covid 19 e seus efeitos sobre o medo das pessoas. A concentração de renda planetária decorrente nas mãos de uns poucos ‘trilherdários’. A guerra na Ucrânia e seus efeitos geopolíticos e até possibilidades nucleares de uma misteriosa nova ordem mundial, contrastam com uma era tecnológica sem precedentes e nos distanciam dos sonhos da Rio-92.
Neste momento em que globalização produz desconfiança e os nacionalismos dão medo, o que dizer senão que o mundo atual ainda não tem as lideranças das quais vai precisar para virar a mais difícil curva da história da humanidade.

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