Ex-ministro do Turismo do Brasil Vinicius Lummertz
Alan Morici
Ex-ministro do Turismo do Brasil Vinicius Lummertz

As regiões centrais das grandes cidades são festejadas em todo o mundo. Destino natural de turistas, tamanha a identificação e a certeza de que ali está a gênese e a síntese – sem contar a garantia da oferta de serviços. Os centros são generosos. Nutrem o entorno. Tolerantes e adaptáveis. Digerem novidades e modismos, assimilam e devolvem, antropofágicos. Têm lampejos constantes de renovação, seja pelo poder público ou da iniciativa privada – normalmente em bares e restaurantes.

As maiores cidades brasileiras precisam com urgência repensar a relação com as áreas centrais. Em São Paulo está o maior potencial de recuperação urbanística, social e cultural do País. Centenas de prédios, que perderam suas funções iniciais, jazem à espera de um novo destino. A eles mesclam-se ícones: Theatro Municipal, o Mercadão, o Altino Arantes – o famoso Edifício Banespa, a Sé, o Pateo do Collegio, o Mosteiro de São Bento e ruas de comércio popular.
Acrescente-se que nos centros abunda a oferta de transportes. Na capital paulista são sete estações de três linhas de Metrô, duas centrais de trem e um sem-número de linhas de ônibus.

Exemplos de potencial e iniciativas episódicas de recuperação não faltam Brasil afora. Em 1999 Fortaleza inaugurou o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, hoje com 1,5 milhão de visitantes/ano. Em Salvador, moradores e turistas lembram-se do renascimento do Pelourinho – e recentemente tivemos a sede do A Tarde, de 1930, retrofitada como hotel. No final do ano passado, Recife lançou o Recentro, que além da zeladoria inclui incentivos fiscais. Já há alguns anos Florianópolis iniciou um movimento de revitalização da região centro-leste, porém, antes de começarem, as obras foram interrompidas pelo Tribunal de Justiça, que acatou pedido de liminar do Ministério Público catarinense. A novela continua judicializada.

No Rio de Janeiro o centro ganhou uma repaginada para os Jogos Olímpicos de 16 – com um destaque para o Museu do Amanhã. Já entre os movimentos orgânicos da iniciativa privada é interessante ver renascimentos como no Largo São Francisco da Prainha – na vizinha Saúde – talvez hoje um dos lugares mais cariocas do Rio de Janeiro.

A capital paulista também tem iniciativas etílico-culinárias interessantes, como os bares sob o Theatro Municipal e o Banespão, o restaurante no topo da antiga Light e o futuro hotel temático do Bar Brahma. Todos gravitando o Vale do Anhangabaú, recuperado pela Prefeitura e concedido à iniciativa privada.
Ao lado de tudo isso, um ícone da hotelaria: desenhado por Joseph Gire – arquiteto do Copacabana Palace, Palácio das Laranjeiras, Hotel Glória e prédio do jornal “A Noite” – o paulistano Esplanada fará 100 anos em 2023. Foi hotel até os anos 50, sede de uma empresa e hoje abriga órgãos do Governo.

É parte de um vigoroso projeto que estamos empreendendo, para criar um fundo imobiliário cujos resultados serão reinvestidos no próprio centro, ajudando a resolver também os problemas sociais. O maior desafio da iniciativa é de entendimento e diálogo que alinhe os investimentos públicos e privados. Hoje vivemos um impasse que eventualmente paralisa e impede as ações.

Um fato inusitado une Rio e SP no Esplanada: o carioquíssimo Cazuza musicou um poema de Oswald de Andrade em homenagem ao hotel, a Balada do Esplanada. É isso: os centros das grandes cidades são inspiradores, mas precisam de alguém que os musique – restaure, promova, incentive – para que possam ser cantados em prosa e verso.

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