Vinicius Lummertz
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Vinicius Lummertz

A pior coisa que pode acontecer com uma boa ideia é ser mal executada ou interrompida. Com más execuções as boas ideias vão para o final da fila. Aí perde o país, que volta a ser refém do seu atraso, enquanto quem bem executa segue em frente. O caso do Brasil: não é só a escassez de boas ideias, como também suas deformadas execuções.

O atual governo federal está terminando sem pôr em prática a melhor parte do que propôs, que seria uma agenda liberal para o Brasil, que - diga-se depois de sete décadas de estatismo - calharia modernizar. Ou seja, voltar ao que quiseram Juscelino, FHC e Temer, todos interrompidos. Ao não o fazer e ao realizar um governo sem eira nem beira, Bolsonaro queima o filme da direita no Brasil - e mantém seus fiéis reféns atônitos, em silêncio ou raivosos, jogando pedra em avião.

Prometeu as reformas modernizantes se fiando no “Posto Ipiranga” e pouco executou - ao contrário, mesmo a reforma previdenciária, iniciada com Temer, teve que ser liderada pelo então presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Assim o governo Bolsonaro termina melancolicamente, arriscando ser a escada de volta da esquerda que ousou derrotar. Escada ou gangorra, nesta altura.

A esquerda brasileira, que alegava também ter uma boa ideia e melhoraria a vida dos pobres, só entregaria mesmo a maior recessão da história até então e 14 milhões de desempregados. E tem os paradoxos, pois alguns governos lulopetistas foram liberais, mas em favor da concentração financeira. E Lula terminou seu governo sem mudar nem reformar o Brasil.

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Assim, deformando as boas ideias de direita e esquerda, ficamos no final à mercê do populismo; como se ambos fossem faces de dois extremos ‘neo peronistas’ à brasileira - uma volta inteira para acabarmos como a Argentina? É de se perguntar ao leitor e eleitor se a culpa deste estado subdesenvolvido das coisas seja apenas dos diretamente envolvidos, ou se seríamos todos culpados?

Eu me socorro no cinismo inteligente do dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues: “O subdesenvolvimento não é obra do acaso, nós levamos mais de 500 anos para chegar até ele, que é agora uma obra sólida”. De fato, é.

E penso eu que, enquanto as “pessoas pensantes não pensarem sobre isso”, estaremos fadados a deformar as chances de boas ideias funcionarem em nosso país. Qual seria então o primeiro passo nos livrarmos da “maldição” de Nelson Rodrigues? Ora, não insistir nos erros passados e presentes. Precisamos de uma nova via - de uma melhor via.

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