Vinícius Lummertz
Vinícius Lummertz
Vinícius Lummertz

O primeiro-ministro inglês Winston Churchill, um dos heróis que salvaram o mundo da dominação nazista na Segunda Guerra Mundial, dizia que “a Democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras”.

Na minha opinião, essa frase de Churchill deveria ser um mantra para os brasileiros. Principalmente para aqueles das gerações que nasceram a partir dos anos 1980 e que não tiveram o dissabor de conviver com a ditadura. Coisas que hoje são direitos básicos do cidadão – como falar o que se pensa e votar para escolher seu governante – eram proibidos, censurados; e quem ousasse fazer diferente podia ser preso, torturado, exilado e até morto, como muitos foram.

Na semana passada, um manto de ameaças pairou sobre a infante e frágil Democracia brasileira, quando se usou o seu mais sagrado instrumento – o voto – para criar condicionantes (“se não tiver voto impresso, não tem eleição em 2022”) que colocam em cheque a liberdade de todos nós, o próprio regime democrático e a nossa Constituição. Não vou entrar no mérito da ameaça, porque ela me causa náusea e repugnância – sentimento, aliás, que vem sendo compartilhado pela grande maioria dos brasileiros.

Faço parte de uma geração que lutou pela volta da Democracia. “Choramos muito, muitos se perderam no caminho”, como disseram os mineiros Ronaldo Bastos e Beto Guedes, lembrando dessa luta e da vitória que veio em janeiro de 1985, depois de 20 anos de ditadura, com a escolha de um conterrâneo deles, Tancredo Neves, para a Presidência da República, infelizmente ainda pelo voto indireto do Congresso Nacional. Eleito em janeiro, Tancredo morreu em 21 de abril, Dia de Tiradentes e da Liberdade – e este foi legado que ele nos deixou, para que cuidássemos para sempre, para nunca mais permitirmos que os tempos de medo e terror se repetissem em nosso país.

Na minha terra, Santa Catarina, tivemos nossos heróis, mártires e bravos lutadores pela volta da Democracia. Não vou nominar nenhum deles, sob pena de cometer imperdoáveis injustiças. Por isso vou contar de um baiano chamado João, nascido em Salvador, em 1919. Iniciou seus estudos em casa, depois frequentou o Ginásio e aos 16 anos já era revisor da Imprensa Oficial do Estado. Entrou no curso de Direito da Universidade Federal da Bahia, mas sua grande vocação era mesmo para as letras, a criação, o jornalismo e a propaganda.

Em 1942 foi para Rio de Janeiro, caminho natural dos grandes talentos da época, e logo chegou a redator da famosa Standard Propaganda, onde seria vice-presidente em 1948, já em São Paulo. Poucos anos depois criou a sua própria agência e, em 1962, foi eleito suplente de deputado federal pelo Partido Democrata Cristão (PDC). Assumiu o mandato em 1963, incorporando-­se à Frente Parlamentar Nacionalista, que apoiava o presidente João Goulart. Após o golpe de 64, foi incluído na primeira lista de punições do Ato Institucional nº 1, teve o mandato cassado e os direitos políticos suspensos por 10 anos.

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Com a ajuda de outro herói da resistência democrática, Ulysses Guimarães, João conseguiu sair do país, com a mulher e dois filhos pequenos. Eles viveram em Paris por dois anos e, enquanto o pai permaneceu na França por receio de ser preso no Brasil, a família voltou para São Paulo.

Foram tempos muito difíceis. A mãe usava as poucas joias para levantar dinheiro na penhora da Caixa Econômica, para pagar a conta da luz e comprar um pouco de comida. Ela abriu uma pequena fábrica de fraldas de pano numa garagem em Pinheiros. Mas passou muita necessidade com os filhos, porque não teve ajuda da família. O mais velho foi estudar numa escola pública e, já aos 13 anos, trabalhava organizando negativos fotográficos na agência de publicidade em que seu pai havia sido diretor, a Standard. Para levar comida para casa, vendia anúncios de jornal, rádio e televisão de porta em porta, com o talento que o transformou num dos grandes vendedores do país. A família vivia numa casa simples em Pinheiros. Antes do exílio, moravam numa mansão no Pacaembu.

O pai só retornou ao Brasil em julho de 1974, depois que a pena de dez anos de cassação de seus direitos políticos havia expirado. Logo em agosto, a mãe morreu vítima de pneumonia: depois de tanto tempo, os meninos ganhavam de volta o pai, e perdiam a mãe. João abriu uma editora e um instituto que ainda divulga técnicas de meditação. Morreu em 2000, aos 81 anos. Deixou muitas lições de vida, uma delas a de que a Democracia é um direito sagrado que, quando perdido, causa dramas e traumas como os que a sua família passou.        

Mirando o exemplo do pai e da mãe, Maria Sylvia, os filhos se esforçaram e fizeram carreiras de sucesso. O mais velho, também João, enriqueceu com empresas de eventos. O mais novo, Raul, abriu uma produtora de publicidade e cinema. Seguindo os passos do pai, o filho João entrou na política. Em 2018 elegeu-se prefeito de São Paulo e, dois anos depois, governador do Estado. Esta é a história de João Agripino Doria da Costa Neto, de sua esposa Maria Sylvia, e dos irmãos João Doria Junior e Raul Doria.    

Uma história que mostra, de forma nua e crua, porque o Brasil e nós catarinenses, que somos filhos de uma terra onde se cultiva o trabalho, a liberdade, o respeito e o amor ao próximo, não devemos calar quando a Democracia é posta em xeque.

Vivemos tempos amargos, obscuros, em que famílias, amigos e colegas de trabalho estão divididos porque têm opiniões diferentes sobre a política. Sem dúvida, é preciso reconciliar o país – mas também é fundamental para isso que a gente possa continuar a ter a liberdade de manifestar as nossas opiniões e o nosso voto.

A liberdade de expressão, assim como a eleição, é cláusula pétrea da Democracia, até para que possamos preservar a máxima do pensador francês Voltaire: “Discordo do que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo”.

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