A vizinhança dos jovens de Kfar Aza: todos foram mortos ou sequestrados pelo Hamas
Miriam Sanger
A vizinhança dos jovens de Kfar Aza: todos foram mortos ou sequestrados pelo Hamas

Todo israelense, ao ser perguntado, consegue descrever com detalhes onde estava e o que fazia às 6h29 da manhã do dia 7 de outubro de 2023, momento em que o Hamas iniciou o ataque mais mortífero da história do Estado de Israel.

Nos canais israelenses de televisão e de rádio, o terceiro aniversário da invasão é o assunto mais proeminente. Ouvem-se entrevistas com familiares dos 1,2 mil que foram mortos naquele dia, dos mais de 5,5 mil que foram feridos e com reféns que sobreviveram ao impensável cativeiro. Policiais e socorristas dão depoimentos aterrorizantes, assim como as equipes médicas dos hospitais que receberam, ao longo de mais de 24 horas, ondas de feridos por tiros, bombas, explosões, facas e marretas.

É incrível perceber que, apesar de tudo o que já foi falado, há tanto ainda a se dizer. Neste aniversário, provavelmente em resposta à degradação da imagem de Israel diante de um mundo que não entende — ou finge não entender — o que acontece nestas bandas do planeta, novos filmes, imagens e áudios captados naquele dia sombrio estão sendo liberados ao público.

Alguns dos socorristas israelenses descreveram que cada terrorista morto trazia consigo um facão preso às costas, do tipo usado para abrir trilhas. Muitos deles falaram sobre pilhas de membros ou de corpos incompletos. Há uma forte pressão interna para que o governo libere para o público internacional os filmes gravados pelos próprios terroristas mostrando seus atos. E também para que libere os vídeos dos assassinatos transmitidos em tempo real pelos terroristas aos familiares das agredidos pelo FaceTime, pelo Facebook ou pelo WhatsApp, a partir dos telefones das próprias vítimas.

Enquanto os invasores buscaram registrar e divulgar as atrocidades, os israelenses buscam escondê-las. Um movimento nobre, que preserva a privacidade e a dignidade das vítimas, mas que, por outro lado, dificulta que o mundo compreenda a dimensão do que aconteceu naquele dia e, consequentemente, a decisão de Israel de erradicar o Hamas.

Nos áudios, ouvem-se as gravações de pedidos de socorro de jovens que participavam do Festival Nova, onde centenas foram mortos com enorme brutalidade, depois de serem caçados por horas e submetidos a atos de extrema violência. Acompanham-se os telefonemas de crianças das comunidades invadidas à polícia, avisando que seus pais foram mortos e que elas estão sozinhas em casa; ouvimos as mensagens de despedidas de soldados de seus familiares antes de entrarem nas áreas ocupadas pelos terroristas. Também foram disponibilizadas várias mensagens de centenas de israelenses escondidos com suas famílias em bunkers, nos grupos de WhatsApp dos kibutzim, perguntando uns aos outros: onde está o Exército?

Esta é, aliás, a pergunta de ouro que ainda não foi respondida pelo governo. Naquela manhã, em que os judeus celebravam Simchat Torá e o Shabat, havia poucos soldados alocados nas bases, assim como um número reduzido de policiais de plantão. Despreparados para uma invasão daquela dimensão, eles não puderam fazer frente à invasão de cerca de 6 mil terroristas;  329 soldados e 58 policiais israelenses morreram naquele dia.

Uma carta publicada hoje, com o relato de um soldado da unidade de forças especiais da Marinha israelense sobre sua chegada a uma das comunidades arrasadas, expressa bem a desolação sentida naquele dia.

“O silêncio que envolvia os gramados verdes do kibutz não nos enganará. Este não é o silêncio da tranquilidade. É o silêncio depois da tempestade. Tudo está quieto. Não há sequer pássaros. [...]

“Uma única pergunta não sai de nossas cabeças: o que, em nome de Deus, aconteceu aqui? O primeiro encontro com o massacre nos lançou 80 anos para trás. Isto é um Holocausto? [...]

“Na casa, já não há paredes nem portas, apenas um grande vazio. Somente a porta do quarto de segurança ainda está de pé, enegrecida, retorcida e crivada de balas, como se nos pedisse que a deixássemos guardar para sempre a perda que há lá dentro. [...] As crianças estão deitadas nas pequenas camas: meninas gêmeas, loiras, com cabelos ondulados que ainda são macios. Na segunda cama está o irmãozinho, o broto de sua vida murcho de uma só vez. Parecem estar dormindo. Mas a fuligem em seus rostos fala de um sono eterno. Os pais estão caídos no chão. Foram atingidos, ao que parece, pelas balas que atravessaram a pesada porta enquanto a bloqueavam com os próprios corpos para impedir a entrada dos assassinos. Uma família linda, uma família do povo de Israel.

A família Siman Tov: os cinco foram mortos pelo Hamas no dia 7.10
Arquivo pessoal
A família Siman Tov: os cinco foram mortos pelo Hamas no dia 7.10


“Nós os carregamos para fora e os colocamos próximos uns dos outros, para que não fossem separados, sobre o gramado onde haviam brincado e construído sua família, com fé. Fé no povo de Israel. Nós os cobrimos com cobertores de sua própria casa e permanecemos diante deles em silêncio. [...] Afinal, esta é apenas a primeira casa.

“Esta foi nossa primeira hora no Kibutz Nir Oz. A primeira de 36. [...]

“Ao amanhecer, uma coluna de fogo se ergueu em direção aos céus. Um incêndio que os assassinos haviam provocado horas antes na antiga fábrica do kibutz voltou a ganhar força e escureceu o nascer do sol, como se dissesse: este não é um dia de luz. [...]

“Esta é uma missão sobre a qual não se lê nos livros, que não se aprende nos treinamentos, que não se pratica nos exercícios. Não nesta escala. [...] Do sul ao norte, passando por todas as casas que havíamos marcado na noite anterior, recolhemos todos eles. Pais e filhos. Irmão ao lado de irmã. Casais jovens e casais idosos. Um homem idoso que protegeu a esposa com o próprio corpo na entrada do quarto seguro, embora ela também estivesse lá dentro, já sem vida. Um homem idoso que não conseguiu chegar ao quarto seguro com sua cadeira de rodas. Outro idoso, e mais outro. Eles não pouparam ninguém. Recolhemos todos.

“Perdoem-nos, Tamar, Yonatan, Arbel, Shahar e Omer, da família Kedem Siman Tov, e queridos moradores do Kibutz Nir Oz. Perdoem-nos por não termos chegado a vocês a tempo.

“Não esqueceremos e não perdoaremos.”

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