
Naza, título de um dos mais polêmicos documentários da atual guerra, parece, mas não faz, referência ao nazismo (embora essa possa ter sido a intenção de seus diretores). Ele é uma sigla para “nezek agaví”, que significa “danos colaterais” em hebraico. É o termo usado no contexto militar israelense para indicar o número estimado de civis que poderão morrer em um determinado ataque, como parte da avaliação dos danos colaterais.
Em seu documentário, premiado nesta semana no Festival de Veneza, os diretores israelenses Yuval Avraham e Rachel Szor fizeram uma leitura própria e diabólica desse procedimento. Para tanto, basearam-se em 24 depoimentos anônimos de pessoas que afirmam ter atuado, durante a guerra, em unidades militares e de inteligência de Israel, algumas delas na famosa 8200. Em cenas escuras, os depoentes desfiam uma série de situações que contradizem as doutrinas do Exército e buscam confirmar uma hipotética falta de interesse de Israel em reduzir a perda de vidas inocentes em ataques aéreos a Gaza.
Dimensão fanática
O filme ainda não está sendo exibido em Israel e nada havia sido ouvido a respeito dele — até sua exibição no festival italiano. Seus diretores são uma dupla jovem de ativistas políticos pouco conhecidos em Israel, que contou com financiamento estrangeiro e produção inglesa. Entre os produtores está o The Guardian, jornal inglês que tem adotado um posicionamento claramente anti-Israel desde o início da guerra. Naza recebeu uma ovação de cerca de 25 minutos, considerada a mais longa da história do Festival de Veneza. Foi isso, e não o documentário, que, a princípio, chamou a atenção do israelense, já acostumado a filmes que buscam prejudicar a imagem do país.
O reconhecimento exagerado da plateia foi descrito por Yuval como “um pouco constrangedor” em uma entrevista na TV israelense. No podcast For Heaven's Sake, o escritor Yossi Klein Halevi, conhecido por sua postura favorável ao diálogo e à criação de um Estado palestino, criticou a recepção do filme. “Não há como não notar uma certa dimensão fanática no fato de o público aplaudir com tanto entusiasmo a demonização de Israel, como se isso se tratasse de um gesto nobre”. O filme recebeu o Prêmio Especial do Júri da competição oficial.
Reação em Israel
A reação negativa ao filme, entre múltiplos setores da sociedade israelense, foi muito forte, salvo exceções, como algumas ONGs pró-Palestina e outros diretores de cinema. Ex-reféns do Hamas, familiares de soldados, políticos de diferentes vertentes, escritores e jornalistas manifestaram-se publicamente.
É incomum que um filme dirigido por israelenses provoque uma reação pública tão vigorosa do governo e do Exército (IDF). Ministros se manifestaram em prol da revogação da cidadania dos codiretores. O ministro da Cultura, Miki Zohar, pediu que fosse examinada a possibilidade de retirar a cidadania de ambos; posteriormente, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou a intenção de propor legislação que permita a revogação da cidadania de pessoas que difamem soldados israelenses. É um processo longo, que depende de bases legais e de decisão judicial, uma vez que a legislação israelense prevê a possibilidade de revogação da cidadania em determinadas circunstâncias, como terrorismo e traição.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu gravou um desagravo em vídeo, e o chefe do Estado-Maior do Exército divulgou um comunicado, levando o assunto a um campo certamente não imaginado por Yuval: a IDF manifestou a intenção de examinar possíveis medidas legais e abrir uma investigação sobre o material utilizado no filme. Também houve pedidos de identificação dos ditos soldados e integrantes da inteligência que aparecem anonimamente no documentário, entre eles supostos integrantes da Divisão 8200.

A exigência não é um ato de vingança: a gravidade das acusações exige comprovação e, caso não se confirmem, punição. Até o momento, não houve comprovação pública independente das acusações feitas pelos depoentes, e o Exército israelense rejeitou as principais alegações apresentadas no filme.
Em uma entrevista à televisão israelense, Yuval Avraham, que se define como pacifista, assumiu o medo de voltar para casa. “Israel é meu lar; significa tudo para mim. O que eu ficarei fazendo no exterior?” O público, por seu lado, faz uma pergunta bem diferente. Como a dupla conseguiu se desconectar da dor nacional e lançar uma sombra tão grande sobre a atuação de soldados israelenses com base em testemunhos anônimos?
Uma vez que não se trata de uma produção investigativa convencional, com fontes identificadas publicamente e capaz de comprovar a tese abraçada, até o israelense mais racional não encontra razões para compreender a motivação dos diretores.
Promoção do ódio, não da paz
Jornalistas de destaque também se mostraram perplexos com o documentário. O jornalista Ben-Dror Yemini, autor do livro A Indústria de Mentiras ( vendido no Brasil em tradução para o português), considera a iniciativa covarde. “Quem exibe mais um filme que serve à propaganda do Hamas não é corajoso. Sabe de antemão que receberá longos minutos de aplausos de pessoas que entendem do assunto tanto quanto entendem de cultivar alface na Lua.” Segundo ele, o documentário não abraça nenhum objetivo nobre como a expansão do diálogo entre israelenses e palestinos. “O filme não promove a reconciliação nem a paz. Muito pelo contrário, promove o ódio”.

O Hamas pode ter um dedinho na produção, uma vez que Ahmed Alnaouq é um velho parceiro político e amigo pessoal de Yuval Avraham. Ele vive na Inglaterra, ocupa cargo de direção na Euro-Med Human Rights Monitor e é cofundador e membro do conselho consultivo do British Palestinian Committee. Israel já acusou a Euro-Med por ligações com o Hamas e, entre os familiares de Alnaouq ligados publicamente ao grupo terrorista, está seu irmão Ayman, morto em 2014 e celebrado postumamente pelas Brigadas Qassam do Hamas como membro da resistência.
Por fim, essa não é nem a primeira nem a última vez que o Festival de Veneza celebra uma criação de caráter duvidoso. Em um comentário no Podcast Levante, o jornalista Caio Blinder lembrou uma curiosidade histórica: “O Festival de Veneza foi inaugurado por Mussolini, nos anos 1930. Muita gente infame já foi premiada ali.”
Yuval e Rachel apenas engrossam essa fila.
