Turquia e Síria: parceria explosiva
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Turquia e Síria: parceria explosiva

O Oriente Médio funciona como um jogo de xadrez, em que o equilíbrio das forças de praticamente todas as peças se restabelece sempre que uma delas se move. Esse é um efeito que ainda se observa quase dois anos após a queda do ditador sírio Bashar al-Assad, com reverberações em diferentes direções. Uma delas está levando ao acirramento do embate entre Israel e a Turquia no território sírio.

Em dezembro de 2024, logo após a queda da ditadura de Assad, derrubada por uma coalizão de grupos rebeldes, Israel assumiu o controle de uma área de cerca de 350 quilômetros quadrados na fronteira com a Síria, nas proximidades das províncias de Quneitra e Daraa.

Segundo o comunicado do gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu à época, “Israel não permitirá que grupos jihadistas preencham o vácuo e ameacem as comunidades nas Montanhas do Golan com ataques como o de 7 de outubro”. Ao mesmo tempo, o PM garantiu que a “permanência das forças israelenses é temporária,  até que uma força comprometida com o acordo de 1974 possa se estabelecer e a segurança de nossa fronteira seja garantida”.

Atual presidente da Síria: antes e depois
Crédito: AI
Atual presidente da Síria: antes e depois


A Turquia com os pés na Síria

Israel tem tomado diferentes medidas para manter longe de seu território não apenas seus inimigos locais como também a Turquia, cujo poder sobre a Síria vem se ampliando a cada dia.  Além de a Turquia ter voltado a fornecer gás e eletricidade à Síria, os dois países assinaram, em 2025, acordos de cooperação que preveem, entre outros, o treinamento e o fornecimento de equipamentos e sistemas militares.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirma que, quando se trata de cooperação militar, busca na Síria apenas treinamento. A Síria, por sua vez, nega que pretenda estabelecer em seu país uma base militar estrangeira que represente uma ameaça a Israel. Jerusalém, no entanto, desconfia dessas declarações: afinal, há uma óbvia ligação entre setores do governo sírio e grupos jihadistas, facções rebeldes sírias recebem abertamente apoio dos turcos e o presidente Erdogan intensifica cada vez mais seu discurso contra Israel.

Clima beligerante entre Turquia e Israel

A Turquia e Israel cultivaram, especialmente na década de 1990, uma parceria que trouxe benefícios a ambos os lados. Além da construção de uma aliança estratégica e militar, a companhia aérea Turkish Airlines tinha presença marcante no mapa aéreo israelense, e Istambul foi o principal ponto de conexão do país com a Europa. O turismo entre os dois países floresceu, assim como o comércio de produtos dos mais diversos, de vestuário a alimentos.

A entrada de Erdogan no poder — um islamista que frequentemente evoca a herança otomana em sua política externa — transformou as relações. Em seus discursos, ele critica duramente Israel. Após o ataque de 7 de outubro de 2023, Ancara aprofundou seu apoio político ao Hamas; Erdogan chegou a afirmar que não a considera uma organização terrorista, mas um movimento de resistência. Em 2024, a Turquia suspendeu completamente o comércio com Israel.

No que diz respeito à Síria, mesmo que seu atual presidente, Ahmed al-Sharaa, esteja circulando de terno e gravata em visitas governamentais a países ocidentais, há sinais perturbadores sendo enviados aos israelenses. O principal deles é a presença de membros jihadistas no governo, que não agiu com firmeza diante dos vários episódios de  violência sectária registrados em 2025.

Por fim, o ataque à base na Síria

É nesse ambiente que se desenrolou a sequência de acontecimentos que levou ao ataque à base aérea de Abu al-Duhur. Situada na província de Idlib, no noroeste da Síria, a aproximadamente 70 quilômetros da fronteira turca, a província tem importância militar, e sua reativação ampliaria significativamente a presença turca na “nova” Síria.

Foi justamente a possibilidade de uma presença militar turca permanente no local que acendeu o alerta em Jerusalém.

O primeiro passo do governo israelense diante dessa perspectiva foi o diplomático. Dias antes do ataque, o diretor do Mossad, Roman Gofman, conversou com o ministro das Relações Exteriores da Síria, Asaad al-Shaibani, e transmitiu a informação de que a inteligência de Israel indicou que a Turquia planejava  instalar na base um radar e um sistema de defesa aérea operado por militares turcos. A advertência não resultou em nenhuma ação concreta por parte da Síria.

Por fim, na terça-feira, 18 de agosto, uma delegação turca visitou Abu al-Duhur. Poucas horas depois, Israel lançou um ataque  contra a instalação, atingindo as pistas e as instalações militares. Não houve registro de mortes.

Vale dizer que este não foi um evento inédito entre os dois países: em março e abril de 2025, Israel já havia destruído ou danificado gravemente outras bases sírias que, segundo fontes de inteligência, haviam sido avaliadas por equipes turcas como possíveis locais para uma futura presença militar.

Em resumo, o alvo imediato foi uma base síria, mas a mensagem também teve outro destinatário. Agora, Israel e a Síria estão, com a ajuda americana, em conversas para reduzir as tensões e retomar o diálogo, o que poderá levar a um acordo de segurança entre os dois países — o que, sem dúvida, seria uma ótima notícia para todo o tabuleiro regional.

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