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O comercial que foi ao ar no domingo foi de uma infelicidade incrível, mostrando como uma agência de publicidade (Grey) pode estar alienada do real problema de um jogador brasileiro e do que significa a sua patética derrota na seleção, para uma população de camisa amarela frustrada e abandonada.

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Neymar tentou, mas não conseguiu decidir a favor do Brasil no jogo contra a Bélgica
Divulgação/Fifa.com
Neymar tentou, mas não conseguiu decidir a favor do Brasil no jogo contra a Bélgica

Neymar falou para o povo brasileiro num palanque em que pudesse fazer seu mea-culpa com humildade? Não, apareceu num comercial da Gillette, onde faturou um milhão de reais, uma gota d’água num oceano de dinheiro que ele amealhou, merecidamente, por sua categoria como jogador.

Os dizeres do comercial de auto-comiseração contém frases que merecem ser reproduzidas aqui: “Eu sofro dentro do campo… você não imagina o que passo fora dele… dentro de mim ainda existe um menino…você pode achar que cai demais, mas a verdade é que eu não cai, desmoronei”…

Todas essas platitudes são parte do contexto de desbrasileiração por que passam os nossos jogadores contratados na mais tenra idade, como   Vinicius Junior, 17 anos, do Flamengo para o Real Madrid, e Rodrygo, do Santos, mesma idade, mesmo clube.

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Na chegada por lá ocorre a fase de adaptação e de sentir falta da mãe, do feijão que ela faz, dos irmãos, das pipas que não vão mais empinar, das peladas de rua com os amigos, dos programas de televisão, da língua portuguesa que muitos ainda não dominam, mas logo vai se misturar, no cérebro de cada um, com aqueles sons estranhos das línguas estrangeiras.

Na segunda fase vem a  noção do que se pode fazer com o dinheiro, comprando tudo que mostra status, mais a cafonália exibicionista muito bem tatuada.

Daí pra frente o menino se acostuma com o padrão europeu do país em que mora, fora os outros onde vai jogar, em no máximo duas horas de vôo. Só que daqui, na Copa Libertadores, não se chega às capitais sofisticadas dos países europeus, mas às capitais dos países vizinhos, algumas a quatro mil metros de altitude, onde falta ar e o sangue não irriga mais as pernas, já no final do primeiro tempo.

Fica difícil comparar o torneio daqui com a Liga dos Campeões da Europa.

De repente, nossos jogadores são convocados para a seleção, e são levados para aquela Granja Comary, que em época de verão europeu fica com um ruço danado, nem dá para ver a bola. Na Copa de 2014, lá ficaram tiritando de frio os nossos jogadores, enquanto os holandeses estavam instalados em Ipanema, e os alemães na praia do Espelho, no sul da Bahia, curtindo sol.

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Mas é na Comary que nossos rapazes vão encontrar o técnico brasileiro, pronto para apelar para um sentimento patriótico que pode não existir mais.

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