António Guterres
Eskinder Debebe/ONU
António Guterres

Quando o Sr Guterres emitiu sua célebre e inapropriada frase “não aconteceu no vácuo” seguido das mesmas e manjadas referências justificacionistas, ele sabia exatamente o que estava fazendo, e as possíveis consequências de seu ato.

Então, por quê, depois veio a público e, numa declaração relâmpago quis, inutilmente, desfazer o mal estar, sabidamente irreversível, que acabara de produzir?

Precisaríamos aqui entrar obrigatoriamente na psiquê dos mantras ideológicos e suas inconsequências. Aqulilo que um dia já foi chamado de “esquerda” fez grandes esforços para se livrar do impronunciável nome “comunismo” e depois tentou, por decadas, cronologicamente desde as denúncias de Kruschev — sob o horror dos milhões de concidadãos russos exterminados pelo ditador — ressignificar sua postura para se afastar da herança macabra do stalinismo.

A ideia era produzir uma abertura no estilo glasnost que mudasse os rumos da ideologia e a renuncia de todas as tentações totalitárias. Parte do espectro político alinhado com a esquerda passou então a empreender notável energia e pensou ter feito isso ao conquistar o poder seguindo as regras do jogo democrático, sem contudo rever auto criticamente e em profundidade seus dogmas e impregnações mais viscerais, como, por exemplo, sua visão estrutural do “problema judaico”.

Ainda brilhava na mente e na alma dos ressentidos a ideia de centralismo partidário, do Estado absoluto, de substituição radical do regime econômico capitalista, assim como o sentimento antissemita, somente mais recentemente racionalizado como antissionismo.

Ficou evidente que uma ideologia tem sido professada de forma monopsista dentro das salas de aula do mundo. E ela é não apenas hegemônica, mas sustentada pelos velhos e anacrônicos dogmas e refrões.

O inusitado apoio ao exército terrorista do Hamas nas marchas de estudantes violentos em Universidades nos EUA, e a perseguição e pichações nas instituições judaicas, nos leva a acreditar que o sistema pedagógico precisa não apenas ser repensado, mas completamente desconstruído. Quem ouviu os slogans sabe muito bem, entre quatro paredes, que não se trata de solidariedade ao povo palestino. Ali se encontravam os mais veementes e sonoros coros contra judeus desde o início da era nazi. Isso em mais de uma capital, e bem no centro do solo europeu.

Não saberia dizer se existe algum modelo pedagógico pronto para entrar em vigor imediatamente, pois não se trata de substituição, mas de uma mudança na estrutura de atitude existencial, de como se ensina. Gerações de professores doutrinadores precisam dar lugar a educadores que priorizem o ensino acima de suas convicções ideológicas. Que estimulem e enfatizem a criatividade sobre a repetição acritica. A dúvida, sobre as certezas peremptórias. Sem a maiêutica, estímulo à capacidade de se perguntar, e a aceitação da diversidade de interlocutores o resultado será o mesmo: teremos mais conversão do que educação, mais intelectuopolio do que reflexão, mais robotização das massas e menos autonomia intelectual. É assim que pretendem extinguir a polarização que vem se apossando do mundo? Se é, precisamos de um plano B. Somente uma formação dialógica e a indução constante ao pensamento crítico podem mudar o contexto.

O assunto é muito mais amplo, mas o que agora está em primeiro plano são as perturbadoras passeatas a favor dos métodos terroristas e de cantos judeofobicos.

Recentemente o general norte americano David Petraeus, interrompeu e corrigiu o jornalista que o entrevistava explicando que o Hamas nao era uma simples organização terrorista, mas um verdadeiro exército terrorista. Ou seja, o ocidente ainda tem dificuldades em compreender que o Hamas, além dos 229 sequestrados, tem 2.1 milhões de reféns em seu poder.

Trata-se da constatação de que, para pessoas doutrinadas, os valores reais da democracia são, quando muito, apenas seus detalhes cosméticos. O viés contra Israel e sua população, vale dizer o povo judeu, além das estatísticas, é um fato histórico. Sem admitir essa constante um debate intelectualmente honesto torna-se impossível. Esta seria a premissa. E passer a analisar as motivações deste vício antissemita, pois é disto que se trata, são multifatoriais.

Tenho sérias duvidas em atribuir o atavismo racista a um renascimento do nazismo, ainda que organizado sob outra matiz discursiva e de uma forma menos estruturada. Por mais que se assemelhem, pelo mesmo teor racista e perversidade, o escopo jihadista e o clamor apocalíptico cuja finalidade última seria uma teocracia de Aiatolás, torna a comparação repleta de furos.

De tudo isso uma conclusão merece destaque, o ódio antissemita e antissionista é um veneno para o qual não há e nunca houve interesse coletivo em se pesquisar o antidoto. E isso seria de responsabilidade de todas as nações civilizadas do mundo, pois nem sempre as vítimas de chacinas sistematicas podem advogar de forma eficaz em causa própria.

Além disso, os 1400 mortos não podem exercer este direito: foram calados pela covardia dos inimigos da humanidade e de seus costumeiros cúmplices.

Se em algum momento, por desonestidade ou por um erro de avaliação da conjuntura estar ao lado do povo de Israel for transformado pela maioria — como aconteceu antes de Churchill insurgir-se contra a inércia do mundo -- no lado errado da história, sinto que desta vez vou assumir o ostracismo, e quem sabe, resignar-me a mais um exílio.

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