
Não sei se acompanhou o que aconteu com o Felca . Se não, aqui está um resumo:
Depois disso, ficou uma pergunta martelando aqui: por que as pessoas querem tanto saber em quem o artista vai votar?
É pra decidir o próprio voto? Ou pra decidir se continua gostando dele?
Pensa comigo
A gente admira, por exemplo, um cantor porque ele canta bem. Aí, de repente, quer saber o que ele pensa de economia, segurança pública, relações internacionais... O cara ficou famoso cantando que tomou um corno e agora precisa apresentar plano de governo.
Mas tem gente que nunca ouviu uma música dele e também quer saber. Por quê? Porque ele tem dois milhões de seguidores. E, na guerra política, isso é um batalhão.
O artista vira um soldado que ninguém convocou, mas que todo mundo quer alistar. O sujeito passou vinte anos conquistando um público, show por show, e agora tem gente querendo esse público emprestado. Se ele não emprestar, os vinte anos viram uma frase só: “Fulano é artista?”
Tem também quem só queira confirmação. Se ele vota no seu candidato, pronto, agora vocês dois são gênios. Escolher candidato dá trabalho. Seguir alguém de quem você já gosta é bem mais fácil.
Como se eleição fosse compra pela internet: “Não gostei do presidente. Quero devolver. Foi indicação de artista.” Só que voto não tem política de reembolso.
E repara numa coisa
A gente vive dizendo que admira o artista porque ele pensa com a própria cabeça. Até o dia em que a cabeça dele pensa diferente da nossa.
Em 1968, o Caetano Veloso subiu no palco do Festival Internacional da Canção pra cantar “É proibido proibir”.
Os estudantes de esquerda vaiaram tanto que ele parou a música e fez um discurso que entrou pra história. Pra aquela plateia, o Caetano era alienado.
Meses depois veio o AI-5, e ele foi preso pelos militares.
Ou seja: apanhou dos dois lados no mesmo ano.
As vaias ficaram nos livros. As músicas ficaram na vida da gente.
Artista que canta o que a torcida pede faz jingle.
Você pode cobrar de um cantor que ele cante bem, faz parte do jogo. Mas cobrar que ele pense como você? Aí a crítica saiu do trabalho e foi pra pessoa.
E a ameaça nem precisa ser dita. Ela fica ali, subentendida na caixa de comentários: “Ou você fica do meu lado, ou eu deixo de ficar do seu.”
Isso é contrato de admiração com letra miúda.
Na ditadura, o governo queria controlar o que o artista dizia. Hoje, tem gente querendo controlar o que ele não diz.