
Com o STF toda hora no noticiário e essa polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro, eu passei a campanha inteira com uma dúvida na cabeça: será que alguém ia prestar atenção no Senado?
Domingo deu a resposta. Muita gente prestou. A direita saiu dessa eleição bem maior por lá, e eu fico me perguntando quanto desse voto foi recado pro Supremo.
A escalação do Supremo
Brasileiro sempre soube escalar a seleção. É esporte nacional: todo mundo tem a sua, todo mundo acha que o técnico errou.
Só que de uns anos pra cá, tem gente que escala o Supremo de cabeça também. Sabe quem é zagueiro, quem é volante e quem vive cavando pênalti.
O curioso é que esse mesmo eleitor, em junho, não lembrava de senador nenhum. Pelo Datafolha, três em cada quatro brasileiros não conseguiram citar um único nome.
E tem uma sensação no ar, que não é de um lado só, de que no STF a régua muda conforme o freguês. A esquerda reclama de um ministro, a direita reclama de outro. Cada um tem seu vilão de toga.
Quem sente isso tem dois caminhos. Pode xingar no grupo da família, que é de graça e alivia na hora. Ou pode descobrir onde vota.
Porque é o Senado que aprova ministro do STF. E é o Senado que julga ministro em processo de impeachment. Enquanto o país inteiro discutia quem ia morar no Planalto, tinha gente escolhendo, meio sem alarde, quem fica com uma das chaves do Supremo.
132 anos de amém
A chave já foi usada este ano. O Senado passou 132 anos sem rejeitar uma indicação ao STF. Aprovava todo mundo, uns com mais entusiasmo, outros com menos, mas aprovava.
Até abril, quando Jorge Messias, indicado pelo Lula, perdeu por 42 a 34. E isso com o Senado antigo, esse que agora está de saída.
Antes dele, só em 1894. Naquele ano, Floriano Peixoto conseguiu a proeza de ter cinco nomes barrados. Um deles era médico. Médico.
E o detalhe mais saboroso: ele já estava trabalhando no Supremo quando os senadores votaram. O Brasil já teve ministro do STF dando expediente por dez meses antes de descobrir que não tinha passado na entrevista.
Agora a conta é outra. Segundo levantamento da Folha, pelo menos 51 senadores da próxima legislatura já se declararam a favor do impeachment de ministros do Supremo.
Pra afastar um de vez, são necessários 54. Não dá pra fazer sozinho, mas ninguém mais pode dizer que o assunto é coisa de meia dúzia de exaltados.
O voto esquecido
Parece que finalmente o eleitor descobriu pra que serve o voto pro Senado. Aquele voto que a gente digita meio no automático, entre o deputado e o governador, e quatro anos depois nem lembra em quem foi.
Dessa vez, em vez de só reclamar, uma parte do país usou o mecanismo que existe pra tentar mudar o que incomoda.
Hoje o alvo é o Supremo. Amanhã pode ser outra instituição, e outro eleitor incomodado.
O caminho vai ser o mesmo, seja de direita ou de esquerda: descobrir onde vota.
O grupo da família agradece.