Interessante que no Brasil, quando um cidadão comum vai preso, a sociedade decreta: esse aí não tem mais crédito.
Já com banqueiro... é diferente. E não estou falando de um banqueiro qualquer.
Estou falando de um que sentou com governador, ministro, senador, empresário, jornalista, gente do Judiciário e até suíças!!! Governo e oposição, um belíssimo isentão.
Aí esse banqueiro é preso. Investigado por fraude, lavagem, corrupção e obstrução. E, ao contrário do cidadão comum, ele vai ter crédito. Literalmente.
Porque gente assim não acumula só dinheiro. Acumula algo mais valioso:
Informação.
E informação é um ativo que dá pra trocar pela própria liberdade.
Sabe a Xerazade? Não a Rachel, a narradora de "As Mil e Uma Noites". Ela contava uma história por noite pro sultão que ia matá-la de manhã. E parava sempre na melhor parte.
Portanto, ela não sobreviveu por saber mil histórias. Sobreviveu porque nunca terminava a de hoje. O poder dela não estava no que ela sabia. Estava no que ela ainda não tinha contado.
Pois é.
Esse banqueiro pode ser mais poderoso preso do que era solto.
E ele tem histórias pra todos os lados. Se ele achar que quem manda no caso é a esquerda, vai apontar o dedo pra direita. E vice-versa.
Depende de quem ele acha que segura a chave da cela. Um negociador profissional não tem lado. Tem cliente.
Em ano de eleição, uma acusação nem precisa estar provada para produzir efeito. O vazamento chega antes da checagem, e eleição não espera a última instância. Ela acontece no meio da tempestade que o vazamento causou.
Vale lembrar o que a lei diz sobre isso. Mentir ou esconder fato em delação derruba o acordo inteiro, e delação sozinha não condena ninguém: tudo precisa de prova que confirme.
Na Justiça, portanto, exagerar custa caro. No palanque, custa zero. Porque o palanque não espera a prova. Ele só precisa da manchete pra fazer estrago.
E não, nada disso inocenta quem for citado. Um delator pode exagerar e o delatado ser culpado ao mesmo tempo. Aliás, é o mais provável.
Claro que tudo isso é hipótese.
Mas hipótese costuma nascer das brechas do mundo real.
E a brecha, neste caso, está aberta: a primeira proposta de delação foi rejeitada pela Polícia Federal por inconsistência, a segunda está em análise, e o próprio banqueiro já apareceu apontando o dedo pro diretor-geral da PF sem apresentar prova. A eleição é daqui a um mês.
Se o Daniel Vorcaro é um negociador profissional, a pergunta não é o que ele sabe.
A pergunta a ser feita é: quanto custa e pra quem ele está vendendo?