Daniel Vorcaro: Quanto vale o que ele sabe?
Crédito: I. A.
Daniel Vorcaro: Quanto vale o que ele sabe?

Interessante que no Brasil, quando um cidadão comum vai preso, a sociedade decreta: esse aí não tem mais crédito.

Já com banqueiro... é diferente. E não estou falando de um banqueiro qualquer.

Estou falando de um que sentou com governador, ministro, senador, empresário, jornalista, gente do Judiciário e até suíças!!! Governo e oposição, um belíssimo isentão.

Aí esse banqueiro é preso. Investigado por fraude, lavagem, corrupção e obstrução. E, ao contrário do cidadão comum, ele vai ter crédito. Literalmente.

Porque gente assim não acumula só dinheiro. Acumula algo mais valioso:

Informação.

E informação é um ativo que dá pra trocar pela própria liberdade.

Sabe a Xerazade? Não a Rachel, a narradora de "As Mil e Uma Noites". Ela contava uma história por noite pro sultão que ia matá-la de manhã. E parava sempre na melhor parte.

Portanto, ela não sobreviveu por saber mil histórias. Sobreviveu porque nunca terminava a de hoje. O poder dela não estava no que ela sabia. Estava no que ela ainda não tinha contado.

Pois é.

Esse banqueiro pode ser mais poderoso preso do que era solto.

E ele tem histórias pra todos os lados. Se ele achar que quem manda no caso é a esquerda, vai apontar o dedo pra direita. E vice-versa.

Depende de quem ele acha que segura a chave da cela. Um negociador profissional não tem lado. Tem cliente.

Em ano de eleição, uma acusação nem precisa estar provada para produzir efeito. O vazamento chega antes da checagem, e eleição não espera a última instância. Ela acontece no meio da tempestade que o vazamento causou.

Vale lembrar o que a lei diz sobre isso. Mentir ou esconder fato em delação derruba o acordo inteiro, e delação sozinha não condena ninguém: tudo precisa de prova que confirme.

Na Justiça, portanto, exagerar custa caro. No palanque, custa zero. Porque o palanque não espera a prova. Ele só precisa da manchete pra fazer estrago.

E não, nada disso inocenta quem for citado. Um delator pode exagerar e o delatado ser culpado ao mesmo tempo. Aliás, é o mais provável.

Claro que tudo isso é hipótese.

Mas hipótese costuma nascer das brechas do mundo real.

E a brecha, neste caso, está aberta: a primeira proposta de delação foi rejeitada pela Polícia Federal por inconsistência, a segunda está em análise, e o próprio banqueiro já apareceu apontando o dedo pro diretor-geral da PF sem apresentar prova. A eleição é daqui a um mês.

Se o Daniel Vorcaro é um negociador profissional, a pergunta não é o que ele sabe.

A pergunta a ser feita é: quanto custa e pra quem ele está vendendo?

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