
Você já reparou que o Brasil quase nunca resolve um problema? A gente cria um segundo sistema.
Se tem fila, a gente vai lá e fura. Se tem rodízio, alguém compra outro carro.
A regra diz uma coisa e o brasileiro responde: "Calma... eu conheço um cara."
O jeitinho brasileiro é uma espécie de BrasilPlus: é o manual não oficial que funciona melhor que o oficial.
"Desenrola." "Dá um jeito." "Tem um contato." "Deixa com o pai."
Nenhuma dessas expressões significa resolver o problema. Significa contornar o caminho.
E quando alguém usa de influência para mover dinheiro público? Aí não é mais jeitinho, é poder informal. A inteligência deixa de ser entender a regra. Passa a ser descobrir a brecha.
A inteligência deixa de ser entender a regra. Passa a ser descobrir a brecha.
Aqui entra Eduardo Cunha
Dino mandou bloquear R$ 6,1 milhões de Eduardo Cunha, numa investigação sobre suspeita de influência dele na destinação de emendas parlamentares.
Ele teria usado de influência mesmo sem mandato, cassado há quase 10 anos.
No Brasil, o cargo às vezes é só um detalhe. O poder de verdade está em quem conhece o caminho.
É quase um videogame. Tem quem só joga e tem quem procura um bug para ficar rico com vida infinita.
Aí alguém se candidata para corrigir esse bug. Você vota, ele ganha. Assume o controle e deixa o bug rodando, porque o bug dá mais poder. E isso ainda desperta admiração.
Esse segundo sistema não nasce à toa. É resposta a um Estado que demora e exige demais.
O jeitinho começa como atalho de sobrevivência. O problema é quando isso escala e vira ferramenta de poder.
Uma sociedade saudável não é aquela em que todo mundo conhece alguém. É aquela em que ninguém precisa conhecer.
A gente vive numa lógica em que quem segue a regra é ingênuo e quem domina o atalho é gênio.
O problema é tratar quem explora o bug grande como mais admirável do que quem joga limpo.
Aí o jeitinho deixa de ser exceção e vira método. Deixa de ser paralelo e se torna o oficial.