Pilili: a urna mascote
Crédito: Youtube TSE
Pilili: a urna mascote

Você compraria um carro por causa de um Hulk na porta da concessionária?

Uma vez eu vi isso. Era um atrativo pra chamar atenção pros carros. Funcionou? Se o objetivo era olhar, sim. Mas eu duvido que um adulto olhou pro Hulk e pensou: "chegou a hora de comprar uma caminhonete".

O TSE fez a mesma coisa

Lançou um mascote para defender a urna eletrônica. O nome é Pilili. O principal símbolo da democracia brasileira agora tem um mascote. E o nome é Pilili.


Segundo o TSE, a inspiração foi o Zé Gotinha. Faz sentido: um personagem pra atrair crianças que tinham medo de vacina. Nessa lógica, aparentemente adultos brasileiros desenvolveram votofobia. E a solução encontrada foi criar um personagem de espuma.

No evento de lançamento, a Cármen Lúcia, ministra do Supremo Tribunal Federal, apareceu ensinando adultos a apertar um botão. Numa máquina que existe há 30 anos.

Dois problemas estratégicos aí.

Primeiro: Por que uma ministra do STF? A campanha fica menos informativa e mais institucional, num momento em que a confiança nas instituições já está em debate. Complica mais do que ajuda.

Segundo: Quem é o alvo dessa campanha? Quem confia nas urnas não precisa do Pilili. Quem desconfia das urnas não vai mudar de ideia por causa do Pilili.

A urna eletrônica brasileira não é um brinquedo

É um sistema que organiza uma eleição nacional inteira. Milhões de votos. Milhares de máquinas. Resultado em poucas horas. Um sistema que virou referência internacional, estudado por delegações do mundo inteiro. E que não tem fraude comprovada em três décadas.

Você pega uma estrutura desse tamanho e resolve explicar com um boneco.

E o mais curioso é que eles sabem explicar. No mesmo evento, um técnico do TSE desmontou a urna ao vivo diante de estudantes. Explicou as camadas de segurança, a criptografia do teclado, o processo de auditoria, por que a urna não pode ser hackeada, como o sigilo do voto é garantido mesmo que alguém tente coagir o eleitor. Conteúdo sólido, técnico, convincente.

O evento foi rico, mas...

Ficou numa sala com estudantes. Já na campanha, escolheram o mascote.

O problema não é atenção, é confiança. E confiança não se constrói com mascote, assim como não se constrói com Hulk na frente de concessionária. Se constrói com transparência.

O Brasil tem uma das maiores estruturas de votação informatizada do mundo. Era uma chance de fazer uma campanha clara, direta, adulta. Em vez disso, a escolha foi transformar um tema sério numa linguagem de festa infantil.

Depois reclamam que as instituições são desmoralizadas. Essa campanha colabora pra isso.

Vamos esperar o dia 12 de outubro. Quem sabe no Dia das Crianças o assunto fique mais adulto.

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