
Estava eu no meu réveillon em família quando surgiu o tema que deve ter aparecido em 98,76% dos lares brasileiros:
O que você faria com 1 bilhão de reais?
(Os outros estavam discutindo política ou quem ia lavar a louça.)
Infelizmente, ninguém ganhou esse valor. A Mega da Virada de 2025 distribuiu R$ 1,09 bilhão entre seis apostas. Cada ganhador vai levar cerca de R$ 181 milhões.
Um número tão grande que, depois de um tempo, deixa de ser dinheiro e vira abstração. Tipo tentar imaginar o tamanho do universo olhando o teto da sala.
Mesmo assim, a pergunta continua válida:
O que você faria com R$ 181 milhões?
Porque ninguém pensa racionalmente diante disso. É como se a sua imaginação fosse morar na Disney: não trabalhar mais, resolver a vida, acabar com os problemas. Como se os problemas recebessem um e-mail avisando que a firma fechou.
Só que dinheiro resolve muito bem uma coisa específica: a falta dele. Depois disso, ele não resolve: ele escala.
Quem é ansioso se torna um ansioso rico. Quem é depressivo, vira um milionário triste. Quem era inseguro passa a desconfiar de todo mundo, inclusive do gerente do banco, que agora te manda bombom pelo iFood.
O dinheiro não muda o conflito. Ele só aumenta o tamanho do campo de batalha.
Existe também a fantasia da chegada. A ideia de que há um “depois disso” em que a vida entra em equilíbrio permanente.
Mas a vida não tem um juiz pra apitar o final. Ela só muda de cenário. E, além do ingresso mais caro, cobra a taxa de conveniência.
Se antes você tinha um patinete e precisava consertar a roda, agora você tem um transatlântico. É aí aí que você descobre que o problema nunca foi a roda, eram os buracos da rua. Mas agora é o mar.
Em vez dos boletos, entram advogados. Em vez do medo do fim do mês, entra o medo do fim do sentido. E uma leve paranoia de que todo mundo tem uma ideia “imperdível” pra investir seu dinheiro.
Surge então um problema pouco comentado: o dinheiro expõe as relações. Agora você não tem dinheiro para emprestar, tem dinheiro para dar. E isso muda o tom das conversas.
O dinheiro não compra relações melhores. Só tira o filtro das que já eram esquisitas.
Talvez o maior luxo desse dinheiro não seja o iate ou a mansão, mas o tempo. Tempo para dizer não e pra errar sem quebrar. Ainda assim, ele não responde perguntas básicas:
- O que fazer com os dias?
- Com quem dividir a vida?
- Por que levantar da cama quando tudo é possível.
(Spoiler: os coachs não sabem a resposta, só fingem.)
A Mega da Virada muda a vida de poucos, mas alimenta a esperança de muitos. Aposta-se menos por estatística e mais por necessidade de acreditar numa virada. Pura projeção!
Aí, a pergunta mais honesta talvez não seja o que você faria com R$ 181 milhões, mas outra, bem menos confortável:
Que tipo de problema você aceitaria ter quando o dinheiro deixasse de ser um deles?
Talvez o grande choque não seja ganhar R$ 181 milhões, mas descobrir que, mesmo com tudo isso, você continua sendo você. Com as mesmas perguntas, só que sem a desculpa do dinheiro.