Brigitte Bardot jovem e aos 78 anos
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Brigitte Bardot jovem e aos 78 anos

Quando Brigitte Bardot morreu , o mundo correu para repetir o mesmo roteiro: ícone do cinema, símbolo de liberdade feminina, defensora incansável dos animais.

Tudo isso é verdade e eu admiro.
Mas eu pensei: peraí, galera... E o filho dela?

Toda hagiografia, estudo dos santos, é suspeita quando ignora as incoerências.

Bardot dedicou décadas da vida à causa animal. Criou fundação, financiou abrigos, enfrentou governos, denunciou maus-tratos. Um engajamento real, concreto, que salvou vidas.

Ao mesmo tempo, rejeitou publicamente a maternidade e se afastou do próprio filho, Nicolas, ainda pequeno. Não por abandono acidental, nem por tragédia, mas por escolha. E aqui surge um desconforto.

Não é uma cobrança moral rasa do tipo “mãe tem que amar”. Isso seria simplório. A própria Bardot nunca romantizou a maternidade. Disse com todas as letras que não queria ser mãe, que a gravidez foi um trauma, que o filho representava uma prisão num momento em que ela queria liberdade. Não houve fingimento.

A recusa da maternidade, por si só, não é o problema aqui. Estamos falando de alguém com condições de cuidar de um filho, mas resolveu entregar pro pai dele que, por sua vez, deixou com os avós. Isso já é cruel com a criança, fosse um homem que tivesse feito isso. Mas não é esse o meu ponto. 

O problema está, também, no contraste simbólico. Como alguém que dedicou tanto afeto, energia e militância à defesa incondicional da vida animal conseguiu sustentar tamanho distanciamento emocional em relação ao próprio filho?

Inúmeros animais tiveram mais a atenção, afeto e carinho. Quanto ao filho, veja a declaração:

“Eu olhava para minha barriga lisa e esbelta no espelho como para uma querida amiga sobre a qual eu estava prestes a fechar a tampa de um caixão.”

Essa frase está na autobiografia dela junto com outra frase em que ela compara a gravidez a um tumor . Como é a experiência de ser declarado indesejado pela própria mãe de forma pública?

A mesma mulher que se dedicou a salvar vidas escolheu negar vínculo à vida que gerou. Além de egoísta, é uma contradição humana. E justamente por isso incomoda tanto.

Animais não cobram, nem confrontam, não perguntam “por quê?” e não abalam com os pilares individuais e essenciais.

Aí está chave incômoda dessa história.

Bardot parecia amar os animais como se ama o que não devolve julgamento. Já a maternidade exige algo que ela sempre rejeitou: permanência, renúncia, vínculo que não pode ser desligado quando se perde o encanto. É uma assimetria afetiva brutal.

Dá para reconhecer sua importância histórica, seu impacto cultural e sua contribuição real à causa animal sem transformar isso em santidade. E dá, também, para olhar para essa escolha pessoal sem cair no moralismo barato.

Bardot foi coerente consigo mesma e profundamente contraditória como símbolo.


E esse é o nosso papel de expectador: lembrar que pessoas capazes de grandes causas também podem falhar gravemente no íntimo.

Lembrar que nossos ídolos são humanos é importante para que não os tornemos super-humanos.

São humanos superexpostos. Por isso, seus erros não são menores, apenas mais visíveis e mais impactantes.

Admirar sem questionar é o primeiro passo para o fanatismo. E de fanatismo o mundo já está cheio.

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